domingo, 16 de fevereiro de 2020

Afogamentos - Conto





Afogamentos
Tereza Ramos de Carvalho


“Menina, preste atenção, não mergulhe de costas, você pode se afogar!” Era a voz de minha irmã mais velha, que cuidava de nós outros seus irmãos mais novos.

Nossa casa, no tempo, era rodeada de árvores: limeiras, mangueiras, goiabeiras, mangabeiras, e um grande, enorme jatobazeiro de onde tirávamos a resina do tronco e  os frutos para comer. Ficávamos com hálito horrível, “com bafo de dragão”, e os dentes encobertos pela massa amarelada dos frutos.

“Menina, cuidado para não se perder nas locas, a gente pode nunca mais te encontrar”. Era o cuidado da irmã mais velha.

Nossa casa, no tempo, era coberta de palha de coco piaçava e as paredes eram de taipa. Dois quartos, duas salas e a cozinha. O fogão era tão alto que eu não conseguia ver o que havia nas panelas enormes e todas de ferro. Aliás, na infância, quando somos pequenas, tudo parece-nos muito grande. O córrego, onde se pegava água para o consumo, onde se lavava roupas e tomávamos banho, também nos parecia um Rio enorme.

“Menina, cuidado! A correnteza pode te carregar!” Era minha irmã em época de cheias.

No quintal de nossa casa, no tempo, nosso pai fez vários chiqueiros “mangueiras” para engordar os porcos, debaixo das mangueiras. As mangas, no tempo, eram alimento dos porcos.

Nossa casa, no tempo, tinha um terreiro enorme, de areia branca e um curral de madeira na frente. No pátio tinha um pé de imbiruçu enorme, onde meu irmão subia para gritar quando estava com medo. Gritar espantava o medo. 
  
“Menina, vá pegar água no olho d’água!” Era a ordem de minha irmã mais velha.

O olho d’água, no fundo do quintal, era um mistério para a menina. Pensamento da menina: “de onde essa água vem, nesse fio tão fininho? Será que é ele que enche a fonte? Será possível se afogar aqui?” No inverno, minha irmã não deixava a gente ir cedinho à fonte. “Menina, cuidado com as lontras, elas podem te levar para longe”. Era minha irmã cuidadosa.

No olho d’água, a menina era obrigada a lavar as panelas de ferro, sujas de carvão, com folhas de sambaíba e areia grossa. Aliás, naquele tempo, tudo era de ferro e enferrujava: garfos, facas e panelas.

“Menina, não esqueça nada no olho d’água!” Por que será que chamavam “olho d’água” se não havia nenhum olho naquilo? Deve ser porque me vejo no espelho d’água. A menina sempre deixava, assim sem querer, um garfo ou uma colher dentro d’água, na esperança de que aquele fardo diminuísse. Seu pai sempre chegava dizendo que havia encontrado uma peça na areia. O esforço da menina em se desfazer daquela labuta era inútil.

“Menina, vou me casar, vou morar noutro lugar. Você será dona de casa agora”. Era minha irmã egoísta indo embora.

Ficou só, na labuta da casa, menina entre panelas, garfos e facas de ferro que enferrujavam sempre e que ela continuava lavando-os com folhas de sambaíba na grotinha do fundo do quintal, agora não mais no olho d’água. O pai da menina fez umas trempes de pedra-canga no chão da cozinha para que ela pudesse cozinhar.  E, na solidão de brincar, a menina descobre uma árvore linda no terreiro do fundo da casa, que cobria o chão de flores todas as manhãs. Passou a cultivar seu tapete de flores, que ela generosamente deixava, todas as manhãs, só para ela. Era seu Flamboyant.

“Menina, varra a casa e o terreiro, lave as panelas e os garfos e as colheres com folhas de sambaíba, e não deixe nada na grota!”. Eram seus irmão mais velhos, aos gritos lhe ordenando. E ela obedecia.

Acordada, sonhava com anjos, mas quando dormia tinha pesadelos: se afogava em folhas de sambaíba. Quando tinha febre, as folhas enormes, nos seus pesadelos, saíam do limbo em que estavam e, gargalhando, caminhavam em sua direção com olhos e bocas, pernas e braços abertos como se quisessem lhe abraçar. Ela chorava dizendo: estou me afogando, socorro! as folhas vão me afogar”.

Foram tantas as febres e tantos os afogamentos... Ninguém compreendia como uma pessoa se afogava assim, com folhas. Só ela sabia.


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