Afogamentos
Tereza
Ramos de Carvalho
“Menina, preste
atenção, não mergulhe de costas, você pode se afogar!” Era a voz de minha irmã
mais velha, que cuidava de nós outros seus irmãos mais novos.
Nossa casa, no tempo,
era rodeada de árvores: limeiras, mangueiras, goiabeiras, mangabeiras, e um
grande, enorme jatobazeiro de onde tirávamos a resina do tronco e os frutos para comer. Ficávamos com hálito
horrível, “com bafo de dragão”, e os dentes encobertos pela massa amarelada dos
frutos.
“Menina, cuidado para
não se perder nas locas, a gente pode nunca mais te encontrar”. Era o cuidado
da irmã mais velha.
Nossa casa, no tempo,
era coberta de palha de coco piaçava e as paredes eram de taipa. Dois quartos,
duas salas e a cozinha. O fogão era tão alto que eu não conseguia ver o que
havia nas panelas enormes e todas de ferro. Aliás, na infância, quando somos
pequenas, tudo parece-nos muito grande. O córrego, onde se pegava água para o
consumo, onde se lavava roupas e tomávamos banho, também nos parecia um Rio
enorme.
“Menina, cuidado! A
correnteza pode te carregar!” Era minha irmã em época de cheias.
No quintal de nossa
casa, no tempo, nosso pai fez vários chiqueiros “mangueiras” para engordar os
porcos, debaixo das mangueiras. As mangas, no tempo, eram alimento dos porcos.
Nossa casa, no tempo,
tinha um terreiro enorme, de areia branca e um curral de madeira na frente. No
pátio tinha um pé de imbiruçu enorme, onde meu irmão subia para gritar quando
estava com medo. Gritar espantava o medo.
“Menina, vá pegar água
no olho d’água!” Era a ordem de minha irmã mais velha.
O olho d’água, no fundo
do quintal, era um mistério para a menina. Pensamento da menina: “de onde essa
água vem, nesse fio tão fininho? Será que é ele que enche a fonte? Será
possível se afogar aqui?” No inverno, minha irmã não deixava a gente ir cedinho
à fonte. “Menina, cuidado com as lontras, elas podem te levar para longe”. Era
minha irmã cuidadosa.
No olho d’água, a
menina era obrigada a lavar as panelas de ferro, sujas de carvão, com folhas de
sambaíba e areia grossa. Aliás, naquele tempo, tudo era de ferro e enferrujava:
garfos, facas e panelas.
“Menina, não esqueça
nada no olho d’água!” Por que será que chamavam “olho d’água” se não havia
nenhum olho naquilo? Deve ser porque me vejo no espelho d’água. A menina sempre
deixava, assim sem querer, um garfo ou uma colher dentro d’água, na esperança
de que aquele fardo diminuísse. Seu pai sempre chegava dizendo que havia
encontrado uma peça na areia. O esforço da menina em se desfazer daquela labuta
era inútil.
“Menina, vou me casar,
vou morar noutro lugar. Você será dona de casa agora”. Era minha irmã egoísta
indo embora.
Ficou só, na labuta da
casa, menina entre panelas, garfos e facas de ferro que enferrujavam sempre e
que ela continuava lavando-os com folhas de sambaíba na grotinha do fundo do
quintal, agora não mais no olho d’água. O pai da menina fez umas trempes de
pedra-canga no chão da cozinha para que ela pudesse cozinhar. E, na solidão de brincar, a menina descobre
uma árvore linda no terreiro do fundo da casa, que cobria o chão de flores
todas as manhãs. Passou a cultivar seu tapete de flores, que ela generosamente
deixava, todas as manhãs, só para ela. Era seu Flamboyant.
“Menina, varra a casa e
o terreiro, lave as panelas e os garfos e as colheres com folhas de sambaíba, e
não deixe nada na grota!”. Eram seus irmão mais velhos, aos gritos lhe
ordenando. E ela obedecia.
Acordada, sonhava com
anjos, mas quando dormia tinha pesadelos: se afogava em folhas de sambaíba.
Quando tinha febre, as folhas enormes, nos seus pesadelos, saíam do limbo em
que estavam e, gargalhando, caminhavam em sua direção com olhos e bocas, pernas
e braços abertos como se quisessem lhe abraçar. Ela chorava dizendo: estou me
afogando, socorro! as folhas vão me afogar”.
Foram tantas as febres e tantos os
afogamentos... Ninguém compreendia como uma pessoa se afogava assim, com
folhas. Só ela sabia.

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