Ressonâncias
históricas nas narrativas literárias de O
tronco, Quinta-feira sangrenta e
Serra dos Pilões
Historical resonances in literary narratives of O tronco, Quinta-feira sangrenta e Serra dos Pilões
Tereza Ramos de Carvalho[1]
Resumo:
O objeto do presente trabalho é analisar, numa perspectiva comparada, as
tensões entre literatura e história social na literatura “tocantinense”,
observando a interlocução entre autores, obras e contextos. Tomou-se como
objeto de estudo as obras O Tronco, de
Bernardo Élis, Quinta-feira Sangrenta, de Osvaldo Rodrigues Póvoa e Serra dos Pilões – Jagunços e Tropeiros, de Moura Lima.
Ambientadas respectivamente nos municípios de Dianópolis e Pedro Afonso das
primeiras décadas do século XX, as narrativas estão inseridas num contexto de
desmandos, abandono e violência, onde prevalecia o poder dos coronéis e a força
dos jagunços e cangaceiros, protagonistas de muitos eventos trágicos.
Pretende-se apontar como os autores se apropriaram desses eventos e os
plasmaram em suas narrativas, destacando o dialogismo entre elas e a
história.
Palavas-chaves: Literatura
e história, Tensão, Interlocução.
Abstract:
The object of present work is to
analyze, in a compared perspective, the tensions between literature and social
history in “tocantinense” literature, observing the interlocution between
authors, workmanships and contexts. O
Tronco, of Bernardo Élis, Serra dos
Pilões, of Moura Lima and Quinta-Feira Sangrenta, of Osvaldo Rodrigues Póvoa were overcome
as study object the workmanships. Ambienteds respectively in the cities of
Dianópolis and Pedro Afonso of the first decades of century XX, the narratives
are inserted in a context of disobediences, abandonment and violence, where it
took advantage the power of the colonels and the force of the gunmen and gangsters,
protagonists of many tragic events. It is intended to point as the authors if
they had appropriated of these events and they had shaped them in its
narratives, having detached the dialogism between them and history.
Key-Words: Literature and history, History, tension, Interlocution.
Bakhtin[2]
considera que a literatura deve ser estudada a partir do contexto em que foi
criada e não apenas nesse contexto, pois para compreender e explicar o sentido de uma obra deve-se
romper as fronteiras de seu tempo assim como o fazem as grandes obras.
As
narrativas de O Tronco, Quinta-feira Sangrenta, e Serra dos Pilões são substratos dos
eventos sociais e de eventuais observações, além de relatos orais e “fragmentos
da memória”, que foram conscientemente elaborados por seus autores a partir dos
eventos silenciados pela história oficial. Por essa razão, é importante
percebê-las como construções do imaginário, mas que podem ser vistas como um
reencontro com a história das ruínas de um passado não muito distante.
Sabemos
que o texto literário apresenta sempre um resíduo indócil e resistente, que por
mais que o autor tente explicar, as palavras não dão conta de traduzir. Sempre há na obra, um lado referencial do
discurso que é relativo à história, ao contexto, portanto, traduzível e o
domínio plurissignificativo, aquele carregado de sentidos, às vezes
intraduzível. Partindo dessa perspectiva do “intraduzível” que segundo Wilheim
von Humboldt[3] é
a “forma interna do texto” vamos perseguir a ideia de identificar esse
hibridismo nas narrativas de O Tronco,
Serra dos Pilões e Quinta-feira Sangrenta (Os barulhos do Duro).
O Tronco, obra de estreia de Bernardo Élis
como romancista, publicada em 1956, foi um sucesso literário em Goiás,
suscitando polêmica entre os críticos que confundiam o romancista com
historiador. É que, na composição da obra, o autor recriou a trágica história
do arraial de São José do Duro, no norte do estado de Goiás, hoje Dianópolis,
sudeste do Tocantins.
Élis divide os episódios do Duro em quatro capítulos
lineares, seguindo a ordem dos acontecimentos até o desfecho final. No primeiro
capítulo, O Inventário, apresenta a
Vila do Duro, os personagens protagonistas da narrativa e o episódio do forjado
e lacunoso inventário de Clemente Chapadense, fazendeiro morto em emboscada. O
coletor ao ler os autos do inventário percebe que a viúva omitiu a maioria dos
bens. Esse episódio é também uma metáfora para inventário do autor sobre a
história da Vila. Com muitas digressões, o narrador inventaria a história da
Vila, as relações sociais entre as famílias, o abuso de poder dos coronéis, as
atrocidades cometidas pelos Melo e sua sede de poder. Nos capítulos seguintes,
narra a vinda da comissão nomeada pelo governo do Estado para restabelecer a ordem
e a justiça na Vila do Duro; os episódios cruciantes do
romance: numa investida da polícia ao quartel general dos Melo, o velho Pedro
Melo é morto e Artur ‘escapa’ por pouco. Diante de uma série de barbáries
praticadas por ambos os lados culminando com a morte de vários entes e amigos
dos Melo no massacre do Tronco pela polícia que, ironicamente ali estava para
proteger a cidade, Roberto Dorado e Abílio Batata[4],
companheiros de Artur Melo, resolvem atacar a Vila e comandam a carnificina.
A obra apresenta um contexto
político-social intenso que discute três pontos principais: a organização do
poder na república dos coronéis; a dinâmica do jogo político baseada nas
oligarquias centrais e as periféricas que dão estabilidade ao próprio sistema e
suas contradições e a vida das pessoas baseada nas relações de trabalho que
resultou num evento trágico. O conteúdo apresentado em O Tronco pode ser considerado o que Achugar[5] diz ser o “subalterno falado pelos
outros”. E Bernardo Élis utilizando a linguagem simples do povo, situa esse
evento em sua obra como ficção, sem perder o caráter de denúncia nem o filão
histórico.
Em Quinta-feira Sangrenta ou os Barulhos do Duro, (1975), de Osvaldo
Rodrigues Póvoa, prefaciado por Bernardo Élis, a história começa com o episódio do inventário de um fazendeiro,
morto em emboscada e cuja descrição dos bens fora recusada pelo coletor da Vila,
sob alegação de sonegação. Segundo o coletor, a morte de Vicente Belém, por
assassinato, a seis quilômetros da fazenda do coronel Abílio Wolney, além de
parecer-lhe muito suspeita, trouxera ao coronel alguns benefícios, os quais o
coletor resolveu denunciar. Esse episódio desencadeia uma série de outros
acontecimentos, que levam a outros desatinos, até o ponto em que o Coronel
Abílio Wolney é assassinado em sua fazenda, por soldados enviados por outro
juiz nomeado exatamente para resolver os problemas do Duro. O filho do coronel
resolve então contratar um bando de jagunços da Bahia para vingar a morte do
pai. E, comandados por Abílio Araújo (também conhecido pela alcunha Abílio
Batata) e Roberto Dorado, cerca de duzentos homens – jagunços – se amotinam na
fazenda de Abílio Wolney. Na Vila, a polícia com cerca de sessenta homens mal
armados se organiza para receber e vencer os jagunços. E como garantia de
futuro sucesso prendem os parentes do coronel Abílio Wolney, dez pessoas ao
todo, no casarão onde morava sua família. Prendem entre pais, filhos e
empregados ao tronco – um instrumento de tortura utilizado à época da
escravidão. Sentindo que Abílio Wolney (filho) e cerca de duzentos jagunços
estavam a caminho para vingar a morte do pai e salvar aquelas pessoas, os
policiais se antecipam e matam todos os presos ao tronco, exatamente no dia 16
de janeiro de 1919, numa quinta-feira. Esses acontecimentos são noticiados e
ganham repercussão nos principais jornais do país, dando notoriedade à pequena
e arruinada vila do Duro, atual Dianópolis.
Moura Lima publica seu
primeiro o romance Serra dos Pilões em
1995, obra considerada o primeiro romance tocantinense. Esse romance nasce após
pesquisa sobre a história do janguncismo no interior de Goiás e a chacina de
Pedro Afonso. É uma narrativa cujo núcleo central é a perseguição entre dois
grupos inimigos: os jagunços do grupo do capitão Labareda, cujos braços fortes
são Cipriano e Corta-Cabeça e tem por objetivo capturar o bando de cangaceiros de
Abílio Batata, que é comandado por Cacheado, pois seu chefe Abílio Batata,
supostamente está escondido na Bahia à espera do resultado dos saques de seus comandados
no interior das terras goianas. O enredo da narrativa desenvolve-se em torno de
uma demanda pela vingança, organizada por Labareda contra o bando de Abílio
Batata, responsável pelo assassinato de tantos habitantes de Pedro Afonso e a
destruição parcial do arraial em 1914. O bando depois se refugia na região do
Jalapão, onde se desenvolve a narrativa. O autor divide a obra em capítulos[6]
curtos que acompanham a linearidade de cada ação dos grupos de personagens.
Inicialmente apresenta alguns flashes narrativos bem interessantes: enquanto as
pessoas na Vila de Pedro Afonso lamentam sua destruição pelo grupo de Abílio
Batata, os dois grupos avançam rumo às serras do Jalapão. O de Cacheado à
frente promovendo outras atrocidades por onde passava e o de Labareda no seu
encalço e, quando pode, minimiza a dor das pessoas que de alguma forma foram
violentadas pelo primeiro grupo. A história tem início em Pedro Afonso, após a
chacina e termina na serra do Jalapão, com a derrota de Cacheado e de seu
bando. Nesse universo entre cerrado, entremeado de veredas, brejos e rios, se
desenrola a perseguição, as tocaias e finalmente, o confronto violento entre
dois grupos de jagunços. A destruição do grupo de Cacheado pelo grupo de
Labareda diminui, até 1918[7],
as atrocidades no sertão. É uma narrativa dramática em que o autor apresenta
recortes da história e da memória coletiva de Pedro Afonso, que são também
referenciadas na história do Duro por Osvaldo Rodrigues Póvoa.
Bernardo
Élis em sua obra, tanto nos contos como no romance, apresenta-nos a condição
subumana do homem. E detalha, com realismo, o estigma de seus heróis ou
anti-heróis que nascem da pobreza de mentalidade, da condição analfabeta dos
oprimidos pela tacanhez dos que socialmente subjugam aqueles que os contrariam
em seus desmandos e ambições[8].
Percebe-se que a intenção do autor é delinear as trilhas de leituras da
violência, “dizer o outro”, o que está à margem, como lugar de questionamento
da realidade. São as verdades humanas características que Bernardo Élis tenta
desvendar em sua obra. O homem no seu plano regional e telúrico, em lances
diversos entre dois mundos: o mundo interior, o da alma humana, e o homem
social que luta pelo direito de ser humano. Esse indivíduo se potencializa de
forma subjetiva tanto para a história quanto para a literatura. Pois em cada
uma dessas vertentes é apresentado, a partir da investigação do historiador ou
do romancista, e ambos, mesmo embasados no evento, o apresentam idealizando o
que poderia ter sido e que não foi. Para Simone Garcia:
A importância da
literatura para a história não está somente na capacidade de “dizer o outro”,
mas também, por ela ser a ruína da própria história, na medida em que esta, por
concretizar o mínimo (através da historiografia oficial), de suas
potencialidades, possui um grande leque de possibilidades em aberto. A literatura
aponta para outras histórias que, mesmo fictícias, poderiam ter sido e não
foram. Nessas histórias, encontramos os sonhos, os anseios de toda uma massa
excluída.[9]
Os
personagens de O Tronco, Quinta-feira
Sangrenta e de Serra dos Pilões têm
uma existência histórica comprovada, coexistindo no mundo de possibilidade da
literatura com personagens fictícios. Nesse sentido não podemos cobrar dos
autores compromisso com a verdade histórica, embora as obras reflitam os eventos
passados respectivamente, nas Vilas do Duro (Dianópolis) e Pedro Afonso; daí
seu caráter híbrido.
Segundo Saramago em ensaio sobre
história e ficção:[10]
(...)
parece legítimo dizer que a História se apresenta como parente próxima da
ficção, dado que, ao rarefazer o referencial, procede a omissões, portanto a
modificações, estabelecendo assim com os acontecimentos relações que são novas
na medida em que incompletas se estabeleceram. É interessante verificar que
certas escolas históricas recentes sentiram como que uma espécie de inquietação
sobre a legitimidade da História tal qual vinha sendo feita, introduzindo nela,
como forma de esconjuro, se me é permitida a palavra, não apenas alguns
processos expressivos da ficção, mas da própria poesia. Lendo esses
historiadores, temos a impressão de estar perante um romancista da
História, não no incorreto sentido da História romanceada, mas como o resultado
duma insatisfação tão profunda que, para resolver-se, tivesse de abrir-se à
imaginação.
Bernardo Élis e Moura Lima fizeram romances de espaço a partir do meio
histórico e dos ambientes sociais nos quais ocorrem os eventos para, a partir
daí, refletir sobre a exploração, a violência, o jaguncismo, o cangaceirismo, a
má fé, tudo isso atrelado ao poder dos coronéis e à ausência do Estado, que ao
invés de promover a justiça, inicia e apoia a ruína. A crise dos escritores
perece que resulta da impossibilidade de dar uma resposta ao vencido, assim
como parece também ser a crise do historiador.
Segundo Pierre Bourdieu
“os historiadores, na sua ambição de ressuscitar o passado e na sutileza em
mistificarem os eventos acabam utilizando intensivamente a metáfora repleta de
mitos...”[11]. Na narrativa de Quinta-feira Sangrenta
Osvaldo Rodrigues Póvoa também apresenta a história dos vencidos e aponta o
elemento mítico na narrativa; o autor metaforiza diálogos e situações vividas
pelos personagens reais de sua narrativa histórica. Assim como Bernardo Élis,
Póvoa se preocupa com a apresentação do espaço social, com o elemento humano
inserido nos conflitos internos desse espaço e com as interferências maléficas
do Estado.
Segundo Hyden White[12],
um mesmo evento pode ser contado de várias formas e possuírem sentidos
diferentes. E o historiador diante das fontes e das evidências históricas, age
como detetive, interpretando e dialogando com as fontes e essa interpretação
depende do tipo de história que ele quer contar. A partir daí não há como
definir a veracidade da história por ele construída[13].
A subjetividade histórica na criação literária dos autores implica na
reconstrução da história social não como verdade, mas como verossimilhança.
Pode-se dizer que esses autores com sua geografia humana, problematizam a
relação do migrante nordestino, e de outros seres em trânsito – como os
jagunços e cangaceiros -, com o sertão, com a política dos coronéis e fundam
uma identidade com referência na história social.
N’O Tronco o inventário é mote para início
da peleja entre o coletor municipal Vicente e o Coronel Pedro Melo. O capítulo
“O inventário”, é assim narrado por Élis:
Uma
indignação, uma raiva cheia de desprezo crescia dentro do peito de Vicente
Lemes à proporção que ia lendo os autos. Um homem rico como Clemente Chapadense
e sua viúva apresentando a inventário tão-somente a casinha do povoado! Veja se
tinha cabimento! E as duzentas cabeças de gado, gente? E os dois sítios no
município onde ficaram, onde ficaram?
Ora bolas! Todo mundo sabia da existência desses trens que estavam sendo
ocultados. Ainda se fossem bens de pequeno valor, vá lá, que inventário nunca
arrola tudo. Tem muita coisa que fica por fora. Mas naquele caso, não. Eram
dois sítios, e as duzentas e tantas rezes, cuja existência andava no
conhecimento dos habitantes da região. (...) Pela segunda vez Vicente lavrou
seu despacho, exigindo que o inventariante completasse o rol de bens, sob pena
de a coletoria Estadual o fazer. (O
Tronco, págs. 4 e 5).
Percebe-se
que o início do romance apresenta o mesmo mote narrativo: o inventário, a
diferença está na nomeação dos personagens. Os de Póvoa são pertencentes a sua
família, portanto, reais e os de Élis são fictícios. Póvoa apresenta entre 25 e
30 páginas o evento que Élis narra em 276 páginas. Outra situação similar à d’O Tronco é a descrição da comissão
destinada a resolver os problemas do Duro:
Depois
das providências que julgou necessárias, o Juiz Celso Calmon prossegue viagem
para o Duro, e em fins de setembro, chega a Taipas. A Comissão está completa: o
Juiz, o Promotor, o Tenente Antonio Seixo de Brito, os Alferes Catulino Antonio
Viegas, Ulisses de Almeida e Francisco de Sales, além de sessenta praças. (Quinta-feira Sangrenta, pag. 22).
Bernardo
Élis assim apresenta a comissão, representante do governo estadual, que seria
responsável para resolver os problemas do Duro:
Há mais de mês que a comissão
nomeada pelo governador estadual para abrir inquérito sobre os acontecimentos
do Duro marcha pelo sertão. Quando saiu de Goiás, a comitiva era pequena: o
juiz Carvalho, o escrivão Chaves, o Alferes Enéias Altino Peixoto, um cabo,
dois soldados e o camarada Alexandre. Mais ia crescendo à proporção que
avançava. Em são José
do Tocantins uniu-se a ela o promotor de justiça. (O Tronco, pag. 60).
Quanto
à toponímia, o espaço ficcional, é o mesmo espaço histórico: a vila do Duro, na
divisa com o sertão dos estados da Bahia, Piauí e Maranhão, portões de entrada
os tropeiros, dos vendedores ambulantes e dos jagunços e cangaceiros.
Outro
flagrante narrativo se encontra no fragmento que narra o trajeto da Comissão
vinda da cidade de Goiás, comandada pelo juiz Carvalho para resolver os
problemas do Duro; durante a viagem ouviam-se boatos alarmantes que:
Artur
Melo estava com muita gente reunida, bem armada e melhor municiada, cangaceiros
arrebanhados nas fronteiras com a Bahia, Pernambuco, Maranhão e Piauí. [...] Em
Arraias, um tropeiro vindo da Bahia contara que o Duro era jagunço só. Todo o
pessoal valente das fronteiras de Goiás, Bahia, Maranhão e Piauí estava reunido
no Duro. Ali estavam Abílio Araújo, mais conhecido por Abílio Batata, e Roberto
Dorado, famosos cabos-de-guerra que alguns anos antes assaltaram, tomaram a
cidade de Pedro Afonso, reduzindo as casas a um montão de ruínas fumegantes. (O Tronco, pag. 65).
Já
na história, Osvaldo Rodrigues Póvoa assim se refere ao bando de jagunços
contratados por Abílio Wolney:
Chegando
à fazenda Buracão, os dois Abílio aguardam a vinda de Roberto Dorado. Dois dias
depois este chega com seu grupo. Agora são mais de 200 homens, bem armados e
municiados, sedentos de vingança e muito
mais de saque. (grifo nosso). Os chefes: Abílio Wolney, Abílio Araújo,
Roberto Dorado e Deocleciano de Castro[14]
(Quinta-feira Sangrenta, pag. 34).
Os
jagunços e cangaceiros são personagens em trânsito cujas ações permitem que se
estabeleça um dialogismo significativo entre as
narrativas e a história da região: os cangaceiros usurpavam os bens dos
sertanejos e dos pequenos, afastados e atrasados vilarejos desprotegidos, que
sofriam os desmandos do coronelismo com seu jaguncismo desenfreado além da corrupção
política.
Conforme afirma Bakhtin, “as palavras
servem de trama em todas as relações sociais em todos os domínios”[15].
Com isso, todas as formas de conhecimento que as pessoas introjetam nas
relações sociais: valores culturais, econômicos, de direitos e deveres, de
responsabilidade e compromisso social, etc, são exteriorizados pelos indivíduos
a outros pela importância que seu conteúdo social apresenta. Nesse sentido, a
obra literária pode ser vista como resultado de um sistema de relações que, por
muitas vezes, é consequência da tirania do poder que subtrai do indivíduo esses
valores e impõe-lhe o silêncio como obra de desencantos sociais.
Os
personagens das narrativas de Bernardo Élis e os cidadãos citados por Osvaldo
Rodrigues Póvoa são seres imersos na dura realidade do meio físico e social,
por extensão, reduzidos à nulidade, e, por estarem sujeitos às forças da
natureza e da violência, são obrigados pelas circunstâncias a se submeterem às
ordens dos coronéis.
A
história das ruínas de Pedro Afonso está monumentalizada em Serra dos Pilões, história que aponta
para o culto às ruínas e à desaparição dos vestígios. Nesse sentido, ao
recorrer à memória das ruínas da cidade de Pedro Afonso, Moura Lima traça o
roteiro dos jagunços que desde o início do século XX, vinham seguindo o roteiro
dos tropeiros nordestinos que povoaram o sertão durante o processo de
colonização rural do norte goiano, atual Tocantins. Seguindo o roteiro dos
jagunços, Moura Lima promove o reencontro do leitor com personagens conhecidos
de outros autores regionalistas, Bernardo Élis e Eli Brasiliense. Os mesmos
personagens de Bernardo Élis, os cangaceiros, são protagonistas de Serra dos Pilões, de Quinta-feira Sangrenta e de Uma Sombra no Fundo do Rio, de Eli
Brasiliense.)
Os
autores apontam em suas obras, que à época, início do século XX, a banalização
da violência era um ato natural praticado pelos coronéis e pelo poder
constituído e que, comumente, no interior do Brasil-Central, no Norte e
Nordeste do país os coronéis eram políticos que aliciavam bandos de jagunços
para resolverem suas pendências pessoais e políticas. Assim, o jogo de poder
entre eles e as forças do governo gerou um surto de violência nas primeiras
décadas do século XX nessas regiões.
A história dos municípios de Dianópolis e Pedro
Afonso é o que Hardman (2006), define como história das ruínas. Os eventos podem
ser considerados a parte trágica de suas histórias e a literatura produzida em
referência a tais acontecimentos está ainda à margem. Lembrando suas palavras (de
Hardman), a obra de Bernardo Élis apresenta a “barbárie civilizada”, a história
da tragédia do Duro, uma vez que a unidade do povoado foi destruída[16]
no momento que buscava sua autonomia. Élis interpreta o evento a partir dos índices históricos ainda não divulgados pela
história oficial. É a reconstrução histórico-literária do vivido.
Segundo
Moema de Castro Olival, Serra dos Pilões
é história, na medida em que “o saber” de que lança mão é retirado da história”
[17].
A obra é resultado de pesquisas sobre
fatos trágicos acontecidos entre os anos de 1914 em Pedro Afonso. Moura Lima
utilizou os registros históricos para recriar ficcionalmente suas verdades. O
autor mapeia a região do sertão do
Jalapão, no antigo norte Goiano e atual leste do Tocantins, à época, terra
inóspita e portal de entrada dos muitos migrantes nordestinos. O sertão
apresentado por Moura Lima é o sertão de conflitos sociais que deveria ser
domesticado. A temática da obra se desenvolve em torno “de forças endógenas e
exógenas que atuam entre avanços e recuos nos sertões do Jalapão”[18].
O grupo liderado pelo capitão Labareda avança em direção ao grupo liderado por
Cacheado para fazer justiça, e toda a demanda é permeada de recuos ao evento
trágico comandado por Abílio Batata à cidade de Pedro Afonso em 1914.
O
contexto que fundamenta a obra é a fase primitiva dos sertões do norte goiano,
num espaço limitado, ilhado pelo atraso com arquétipos humanos daqueles
“fundões”. É o sertão esquecido pelo poder constituído e invadido pelas forças
dos jagunços e cangaceiros vivendo em “pé de guerra”, e esse mesmo quadro é
observado em O Tronco.
Os
personagens de Moura Lima são presos às circunstâncias regionais, com todos os
problemas que o isolamento político e cultural acarreta. O romance se
desenvolve em meio a uma saga de jagunços e tropeiros entre Pedro Afonso e a
região do Jalapão. E assim como nas tragédias gregas, os personagens imitam
ações reais, suscitando a purgação dos sentimentos por meio do terror e da
piedade. Com uma diferença: a de que enquanto nas tragédias gregas os
personagens eram nobres, deuses e heróis, preocupados com a moralização dos
costumes e pela catarse que era determinada pelo terror, pela piedade e pela
intensidade do sofrimento que provocava, os personagens de Moura Lima são pouco
nobres em suas ações: vivem no universo da violência e promovem as desesperanças
existenciais, e a subcondição humana, destaques da tragicidade presente na
obra. Encontram-se entre os abismos que separam o universo do ser humano
presente na vida do homem contemporâneo. E percebendo sua instabilidade entre
esses abismos, ultrapassam seus limites e causam destruição, repulsa e terror a
si e aos outros.
Caráter dialógico
das narrativas
De acordo com Francisco Foot Hardman[19], a
literatura da margem pode ser o lugar de questionamento do trágico, história
das autonomias, a busca da unidade perdida numa sociedade do esquecimento e a
produção das ilusões coletivas.
A história literária do
atual estado do Tocantins nasceu de fragmentos de memórias que por sua vez
incentivaram à pesquisa histórica que podem ser reconstruções sobre o passado,
porém as narrativas originadas desses fragmentos ainda estão à margem. Ainda
não se tem autonomia nas relações sociais, nem culturais e politicamente ainda
se vive a cultura do coronelismo. Nesse caso, é na margem que ressoam as vozes
questionadoras dos extremismos locais[20].
O texto literário pode ser contextualizado a
partir da observação dos tecidos residuais de eventos históricos, porém nem
sempre conseguimos conhecer a totalidade do interior dessa urdidura. Mesmo que
se tenha um texto referencial que apresente as fronteiras do contexto literário
sobre o mesmo evento, é preciso lembrar que há fronteiras que limitam ou
mesclam realidade e ficção. Às vezes parece difícil visualizar essas fronteiras
na obra de ficção, considerando a verossimilhança presente no texto. E o
contexto pode ser entendido como testemunha, mesmo que seja testemunha da
memória do vivido ou do ouvido na infância, ou da memória coletiva. Assim
quando o escritor associa o texto ao contexto, num só tempo, explica o sentido
da obra e promove o retorno à história. Esse retorno histórico pode significar
uma tentativa de contar a história e ao mesmo tempo fundar uma identidade.
Nesse sentido, podemos
dizer que os romancista Bernardo Élis, Moura Lima e o historiador Osvaldo
Rodrigues Póvoa ao problematizarem a relação do migrante com o sertão e com a
história social das primeiras décadas do século XX do norte goiano, atual
estado do Tocantins, a partir de reconstruções, não de verdades históricas
sobre o passado da região, reconstroem metaforicamente a história silenciada e,
em função disso, põem seus discursos a serviço da inscrição literária que
explica essa identidade.
Francisco Foot Hardman[21]
reabre a discussão sobre tantos pontos e traumas recolhidos de histórias que
foram silenciadas, e das que foram incorporadas apresentando linguagens
desprovidas de sentido, de forma que os espectros conciliados pela nação sorriem
de suas próprias invenções/mentiras. São pontos extremos das fronteiras
discursivas que criaram modos de produção de ilusões coletivas que, por sua
vez, são responsáveis pelo efeito de “fantasias de Brasil” que se apresenta nas
lutas sociais e guerras culturais e se entrecruzam de muitas maneiras, por vias
simultâneas, com várias linguagens e/ou diferentes códigos de comunicação.
Essas linguagens promovem unificações forçadas contra as diferenças
socioculturais que, ou serão eliminadas da memória ou cristalizadas como
figurações de um passado já suplantado. Assim cabe à máquina do Estado o
apagamento da “cultura brasileira”, dos pontos extremos das fronteiras
discursivas geográficas e históricas desses mitos[22]
do ser nacional feitos para se comungar.
Esse processo pode
originar-se de três modos relevantes de produção dos mitos de fundação nacional
e da naturalização do poder estatal: o eixo
monumental ou a monumentalização das ruínas,
na produção de símbolos e construções reveladoras do poder aparente da
civilização, a apresentação dos discursos e ações estatais, inclusive de seus
aparelhos ideológicos. O eixo monumental direciona-se desde a
metrópole ou polo urbano rumo ao sertão, campo ou região mais afastada dos
grandes centros civilizacionais. De forma inversa o culto das ruínas ou o eixo
delével se caracteriza pelas intervenções violentas de indivíduos, grupos
e/ou políticas públicas no sentido do silenciamento completo de vozes ou
línguas diferentes do monolinguismo do Estado e de seus porta-vozes, da
desaparição de qualquer memória ou testemunhos das dissensões e desdobra-se na
direção contrária, da fronteira político-administrativa mais remota ao grande
centro de poder, medido em palavras, imagens e/ou armas com capacidade de
impedir que as memórias incômodas possam reaparecer como provas
comprometedoras. E entre esses dois movimentos polares localiza-se o eixo elegíaco ou ruiniforme, que produz
simbolicamente marcado pela forte presença de discursos, rituais e atualizações
que têm como motivo central o elogio das ruínas, a representação de um passado
heroico perdido, o culto fúnebre e tantas vezes mórbido dos povos, grupos ou
pessoas vencidas em batalhas assinaladas como históricas. Pode-se entender o eixo monumental como uma imposição que
se desloca do centro à periferia, já o eixo
delével, ao contrário, como uma forma popular, desloca-se da fronteira
produtiva ao centro e o eixo elegíaco
localiza-se entre os dois para produzir o discurso simbólico dos dois eixos.
Segundo
Todorov[23]
“duas visões diferentes do mesmo fato fazem deste dois fatos distintos”. O
autor de Quinta-feira Sangrenta ou Os barulhos do Duro descende da família
Wolney e se propôs à tarefa de pesquisar e publicar parte da memória histórica
da ruína de sua Vila. Os eventos são narrados com uma forte subjetividade por
parte do autor que a justifica pelo fato de, além de ser nativo da região,
descende da família massacrada no tronco. Observa-se esse envolvimento do autor
com o evento logo no início, na nota explicativa, quando diz ser o trabalho
“uma homenagem aos seus avós João Rodrigues de Santana e Benedito Pinto de
Cerqueira Póvoa, aos seus filhos e demais companheiros de infortúnio; ao
coronel Joaquim Aires Wolney ...”. O tema ali tratado assemelha-se aos temas
universais, que por sua vez nasceram em suas aldeias e se universalizaram. Já
em O Tronco, Bernardo Élis utiliza o
mesmo expediente local para tratar o tema da violência como consequência da
ambição humana. Conclui-se que o mesmo fato é narrado em duas versões
diferentes: aquela, segundo o autor, como história e esta como ficção.
As narrativas de O Tronco(1956), Quinta-feira Sangrenta (1975)
e Serra dos Pilões (1995), apresentam o discurso localizado no eixo ruiniforme como representação de um
passado perdido em meio às tragédias locais, e que ainda não se deslocaram das
suas fronteiras de produção e permanecem entre os dois eixos na produção do
discurso simbólico.
Os
discursos desses autores têm caráter dialógico, uma vez que eles
conscientemente os preenchem de palavras do outro[24]. Observando as datas de publicação dessas
narrativas, o tema, o contexto e as semelhanças factuais, pode-se dizer que
Osvaldo Rodrigues Póvoa dialoga com Élis como “historiador” do mesmo evento.
Pode-se afirmar que Póvoa, para evoluir como escritor de Quinta-Feira Sangrenta, dependeu de palavras alheias[25],
(no caso, de Bernardo Élis), em meio às quais procurou seu caminho. Portanto,
seu texto habita nas vozes de Élis, assim como na narrativa de Élis habitam
vozes de Póvoa. E Moura Lima seguramente leu as narrativas de Élis e Póvoa,
investigou a história da vila de Pedro Afonso, transformada em ruína em 1914,
cinco anos antes da chacina da Vila do Duro – Dianópolis, fechando assim, o
ciclo narrativo. Essas três narrativas podem representar, portanto, a memória
reelaborada por meio de três elementos: do testemunho, da história e da
literatura. O que Póvoa elaborou como testemunho da história, Élis e Lima
elaboraram como ficção.
Todo
membro de uma comunidade falante encontra palavras habitadas por outras vozes[26].
Percebe-se que o processo de criação de uma obra literária parte de um longo
trabalho de pesquisa de campo, pesquisa bibliográfica, pesquisa histórica e na
tradição oral, e que pode ser entendida como o real mais ou menos imaginado,
que justifica a origem da obra. Bernardo Élis confessa que “foi nesse processo
de conversa com participantes que pôde perceber toda a intensidade com que
falavam do caso.” Segundo Élis, o comportamento e a sensibilidade das pessoas
ao recordar os fatos o comoveram tanto que acabou sendo dominado pela emoção.
Assim nasce o romance e não mais o tratado sociológico anteriormente proposto
pelo autor. Não conseguindo mais isentar-se do drama humano o documentário
acaba sendo substituído pelo romance; o autor passa a recriar o evento histórico,
e promove um retorno às memórias e às ruínas do passado. E assim o fez Osvaldo
Rodrigues Póvoa, não como romancista, mas como “historiador” do mesmo episódio,
vinte anos após a publicação de O Tronco.
Se
a história social não se apresenta com linearidade, podemos afirmar que a
história literária não se obriga a ser. Cabe, portanto, ao crítico observar as
relações dialógicas entre os eventos históricos e literários. Para melhor
compreensão da linearidade dessa “trilogia” como ilusão histórica ou artefato
literário deve-se iniciar as leituras por Serra
dos Pilões, seguida de Quinta-feira
Sangrenta e encerrar com O Tronco, percorrendo
exatamente o caminho oposto ao de suas produções.
E
em Serra dos Pilões, Moura Lima
retoma a palavra para reabitar ou preencher a lacuna deixada por Bernardo Élis
e Osvaldo R. Póvoa, apresentando a origem dos personagens protagonistas das
demandas que deram voz às três narrativas, apresenta os elementos que faltavam
para completar o círculo dessa trajetória histórica trágica: os jagunços e os
cangaceiros vindos dos estados do Nordeste que fazem fronteiras com o norte do
estado de Goiás, atual Tocantins que, posteriormente migraram para a Vila do
Duro/Dianópolis. Alguns vieram para atender aos chamados dos coronéis, outros
seguiam as trilhas dos tropeiros com seus animais que arribavam do Nordeste,
fugindo da seca e dos muitos problemas sociais.
Nesse
sentido, pode-se afirmar que há uma ressonância histórica entre essas
narrativas, uma vez que em cada obra
encontramos muitas informações que preenchem as lacunas de uma e de outra. Cada
narrativa se completa de informações de outra, e se fecham numa “trilogia”.
Bernardo Élis analisa que os barulhos do Duro são o reflexo da cultura
nordestina em Goiás, na parte que nosso estado confina com a Bahia[27].
Ou seja, no final do século XIX e início do século XX, o norte do estado de
Goiás, era vulnerável aos desmandos dos coronéis que utilizavam serviços dos
profissionais do crime (jagunços). Serra
dos Pilões apresenta o confronto entre jagunços e cangaceiros, estes
oriundos dos mesmos estados citados por Élis, e que protagonizaram sua obra na
destruição da vila do Duro.
O contexto dessas obras
permite-nos observar que elas são, além de documentos históricos, uma forma de
historiografia a partir das ruínas, uma vez que a história oficial sobre tais
eventos ainda é incipiente. Nesse caso a literatura passa a ser a
“historiografia inconsciente”, pois utiliza os eventos sociais não como foram,
mas como supõem que foram ou que poderiam ter sido.
A leitura dessas três
obras a começar por Serra dos Pilões,
seguida de Quinta-feira Sangrenta e
finalizada com O Tronco leva o leitor
à compreensão de que os autores trabalham a serviço do mito[28]
fundador dessas cidades no estado. O mito fundador é, dessa forma, compreendido como aquele que explica a
origem ou a fundação de determinado povo e este é eternizado pela sua
constante ressignificação[29].
Assim, a partir da leitura comparativa entre os episódios históricos que
compõem as narrativas percebe-se que o tratamento dado aos eventos foi a
recriação de forma a gerar novos significados: em Quinta-feira
Sangrenta , seu autor parece perdido entre a
objetividade da narrativa histórica e a subjetividade literária. E busca no
elemento mítico condições para construir um discurso indireto entre os
personagens.
Considerando
que o ponto de interseção mais sensível entre a história, a literatura e a
sociedade concentra-se na figura do escritor,[30]
podemos dizer que a tarefa empreendida por esses três autores descortinou
grande parte dos fatos marcantes das primeiras décadas do século XX, e
apresentaram os personagens que se projetaram na história do norte goiano,
atual estado do Tocantins e ajudaram a construí-la.
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Press.)
[1]
Doutora em Literatura pela Universidade de Brasília - UnB e professora na
Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. E-mail: teramos10@yahoo.com.br
[2]
BAKHTIN, Mikhail. “Os estudos literários hoje” In: Estética da Criação Verbal. São Paulo:
Martins Fontes, 1997.
[3] In: Marcio Seligmann Silva. A literatura de testemunho e a tragédia:
pensando algumas diferenças. Organizado por Ettore Finazzi-Agró e Roberto
Vecchi. São Paulo: Unimarco Editora, 2004.
[4]
Esses personagens transitam em Serra dos
Pilões, Jagunços de Tropeiros, de Moura Lima.
[5]
ACHUGAR, Hugo Planeta sem boca.
[6]
Nesta pesquisa trabalhei com duas edições a 1ª, de 1995 (com 21 capítulos) e a
3ª, de 2001 (com 41 capítulos).
[7] Em
janeiro de 1919, acontece a chacina do Duro e, depois disso, o bando comandado
por Abílio Batata continuou promovendo muitas campanhas violentas pelo sertão
do Jalapão. In Serra dos Pilões.
[8]
Moema de castro Olival. O espaço da crítica – panorama atual. Goiânia: UFG,
1998, pag. 149
[9]
Canudos: História e Literatura, pag. 27.
[10]
Saramago, José. História e ficção. In: Jornal
de Letras, Artes e ideias. Lisboa, s/e, 1990; pag. 7-19
[11]
In: O poder Simbólico, pag. 78.
[13]In: Compangnon, pag. 80, encontram-se as
diferenças entre sentido e significado de um texto: -para Montaigne “os poemas
significam mais do que dizem”; Hisrt afirma que o sentido designa aquilo que
permanece estável na recepção de um texto; o sentido é singular; a
significação, que coloca o sentido em relação a uma situação, é variável,
plural, aberta e, talvez infinita.”
[14]
Conforme Rui Facó os cangaceiros invadem, matam e saqueiam os bens de suas
vítimas, os jagunços são indivíduos que prestam serviços aos coronéis por
dinheiro. Nesse episódio de Quinta-feira Sangrenta Abílio Wolney contratou
Cangaceiros, porém em suas terras havia muitos jagunços que se aliaram aos
cangaceiros para “justiçar” a morte do velho Joaquim Wolney.
[15]
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da
linguagem. Op. cit., pag. 5.
[16] Esta é
uma análise voltada para o início do século XX, mesmo agora, nas atuais
circunstâncias, o município de Dianópolis reconstruiu sua história a partir da
ruína.
[17] Op. Cit. pág. 26.
[18] Moema
de Castro Olival. Moura Lima a voz pontual da alma tocantinense. Ensaio. TO,
Gurupi: Gráfico e Editor Cometa. 1ª Ed. 2003.
[19]
Op. Cit.
[20] No
Tocantins o processo de colonização é permanente. É um Estado geograficamente
localizado no centro do país, mas ainda é culturalmente periférico.
[21]
Homo ínfimus: a literatura dos pontos
extremos, In: a vingança da Hiléia,
2009, cap. 19
[22] Na visão de Roland Barthes, In: Mitologias.
3ª Ed. São Paulo: Difel, 1978: 175, o mito institui um dogma e um ritual, não levando
à criação e sim à perpetuação de valores sacralizados, exibindo para o homem
uma identidade paralisada e paralisante, já que seu objetivo é “imobilizar o
mundo”.
[23] In: Estruturalismo e poética, trad. José
Paulo Paes e Frederico Costa de Barros. 2ª Ed. São Paulo Cultix,1973, pág. 63.
[25]
Todorov. Op. Cit. pag. 44.
[28] O
mito é entendido não só no sentido etimológico do termo (mythos – narração pública de
feitos lendários de uma comunidade), mas também em sentido antropológico, como
uma espécie de narrativa utilizada para explicar, entender, ou ainda justificar
determinada realidade, solução imaginária para tensões, conflitos e contradições
que não encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade. In: Marilena
Chauí, Brasil, Mito Fundador e
Sociedade Autoritária. 4. ed. São Paulo: und. Perseu Abramo, 2001, pag. 9.
[29]
M. Chauí. Op. cit. pág. 8
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