domingo, 16 de fevereiro de 2020

Artigo publicado em VIA Literae- Revista de Linguística e Teoria Literária • ISSN 2176-6800

http://www.revista.ueg.br/index.php/vialitterae/ 285
Ressonâncias históricas nas narrativas literárias de O tronco, Quinta-feira sangrenta e Serra dos Pilões
Historical resonances in literary  narratives of O tronco, Quinta-feira sangrenta e Serra dos Pilões 

Tereza Ramos de Carvalho[1]

Resumo:
O objeto do presente trabalho é analisar, numa perspectiva comparada, as tensões entre literatura e história social na literatura “tocantinense”, observando a interlocução entre autores, obras e contextos. Tomou-se como objeto de estudo as obras O Tronco, de Bernardo Élis, Quinta-feira Sangrenta,  de Osvaldo Rodrigues Póvoa e Serra dos Pilões – Jagunços e Tropeiros, de Moura Lima. Ambientadas respectivamente nos municípios de Dianópolis e Pedro Afonso das primeiras décadas do século XX, as narrativas estão inseridas num contexto de desmandos, abandono e violência, onde prevalecia o poder dos coronéis e a força dos jagunços e cangaceiros, protagonistas de muitos eventos trágicos. Pretende-se apontar como os autores se apropriaram desses eventos e os plasmaram em suas narrativas, destacando o dialogismo entre elas e a história. 

Palavas-chaves: Literatura e história, Tensão, Interlocução.

Abstract:
The object of present work is to analyze, in a compared perspective, the tensions between literature and social history in “tocantinense” literature, observing the interlocution between authors, workmanships and contexts. O Tronco, of Bernardo Élis, Serra dos Pilões, of Moura Lima and Quinta-Feira Sangrenta, of Osvaldo Rodrigues Póvoa were overcome as study object the workmanships. Ambienteds respectively in the cities of Dianópolis and Pedro Afonso of the first decades of century XX, the narratives are inserted in a context of disobediences, abandonment and violence, where it took advantage the power of the colonels and the force of the gunmen and gangsters, protagonists of many tragic events. It is intended to point as the authors if they had appropriated of these events and they had shaped them in its narratives, having detached the dialogism between them and history.


Key-Words: Literature and history, History, tension, Interlocution. 

Bakhtin[2] considera que a literatura deve ser estudada a partir do contexto em que foi criada e não apenas nesse contexto, pois para compreender e explicar o sentido de uma obra deve-se romper as fronteiras de seu tempo assim como o fazem as grandes obras.
As narrativas de O Tronco, Quinta-feira Sangrenta, e Serra dos Pilões são substratos dos eventos sociais e de eventuais observações, além de relatos orais e “fragmentos da memória”, que foram conscientemente elaborados por seus autores a partir dos eventos silenciados pela história oficial. Por essa razão, é importante percebê-las como construções do imaginário, mas que podem ser vistas como um reencontro com a história das ruínas de um passado não muito distante.
Sabemos que o texto literário apresenta sempre um resíduo indócil e resistente, que por mais que o autor tente explicar, as palavras não dão conta de traduzir.  Sempre há na obra, um lado referencial do discurso que é relativo à história, ao contexto, portanto, traduzível e o domínio plurissignificativo, aquele carregado de sentidos, às vezes intraduzível. Partindo dessa perspectiva do “intraduzível” que segundo Wilheim von Humboldt[3] é a “forma interna do texto” vamos perseguir a ideia de identificar esse hibridismo nas narrativas de O Tronco, Serra dos Pilões e Quinta-feira Sangrenta (Os barulhos do Duro). 
O Tronco, obra de estreia de Bernardo Élis como romancista, publicada em 1956, foi um sucesso literário em Goiás, suscitando polêmica entre os críticos que confundiam o romancista com historiador. É que, na composição da obra, o autor recriou a trágica história do arraial de São José do Duro, no norte do estado de Goiás, hoje Dianópolis, sudeste do Tocantins.
Élis divide os episódios do Duro em quatro capítulos lineares, seguindo a ordem dos acontecimentos até o desfecho final. No primeiro capítulo, O Inventário, apresenta a Vila do Duro, os personagens protagonistas da narrativa e o episódio do forjado e lacunoso inventário de Clemente Chapadense, fazendeiro morto em emboscada. O coletor ao ler os autos do inventário percebe que a viúva omitiu a maioria dos bens. Esse episódio é também uma metáfora para inventário do autor sobre a história da Vila. Com muitas digressões, o narrador inventaria a história da Vila, as relações sociais entre as famílias, o abuso de poder dos coronéis, as atrocidades cometidas pelos Melo e sua sede de poder. Nos capítulos seguintes, narra a vinda da comissão nomeada pelo governo do Estado para restabelecer a ordem e a justiça na Vila do Duro; os episódios cruciantes do romance: numa investida da polícia ao quartel general dos Melo, o velho Pedro Melo é morto e Artur ‘escapa’ por pouco. Diante de uma série de barbáries praticadas por ambos os lados culminando com a morte de vários entes e amigos dos Melo no massacre do Tronco pela polícia que, ironicamente ali estava para proteger a cidade, Roberto Dorado e Abílio Batata[4], companheiros de Artur Melo, resolvem atacar a Vila e comandam a carnificina.
A obra apresenta um contexto político-social intenso que discute três pontos principais: a organização do poder na república dos coronéis; a dinâmica do jogo político baseada nas oligarquias centrais e as periféricas que dão estabilidade ao próprio sistema e suas contradições e a vida das pessoas baseada nas relações de trabalho que resultou num evento trágico. O conteúdo apresentado em O Tronco pode ser considerado o que Achugar[5] diz ser o “subalterno falado pelos outros”. E Bernardo Élis utilizando a linguagem simples do povo, situa esse evento em sua obra como ficção, sem perder o caráter de denúncia nem o filão histórico.
Em Quinta-feira Sangrenta ou os Barulhos do Duro, (1975), de Osvaldo Rodrigues Póvoa, prefaciado por Bernardo Élis, a história começa com o episódio do inventário de um fazendeiro, morto em emboscada e cuja descrição dos bens fora recusada pelo coletor da Vila, sob alegação de sonegação. Segundo o coletor, a morte de Vicente Belém, por assassinato, a seis quilômetros da fazenda do coronel Abílio Wolney, além de parecer-lhe muito suspeita, trouxera ao coronel alguns benefícios, os quais o coletor resolveu denunciar. Esse episódio desencadeia uma série de outros acontecimentos, que levam a outros desatinos, até o ponto em que o Coronel Abílio Wolney é assassinado em sua fazenda, por soldados enviados por outro juiz nomeado exatamente para resolver os problemas do Duro. O filho do coronel resolve então contratar um bando de jagunços da Bahia para vingar a morte do pai. E, comandados por Abílio Araújo (também conhecido pela alcunha Abílio Batata) e Roberto Dorado, cerca de duzentos homens – jagunços – se amotinam na fazenda de Abílio Wolney. Na Vila, a polícia com cerca de sessenta homens mal armados se organiza para receber e vencer os jagunços. E como garantia de futuro sucesso prendem os parentes do coronel Abílio Wolney, dez pessoas ao todo, no casarão onde morava sua família. Prendem entre pais, filhos e empregados ao tronco – um instrumento de tortura utilizado à época da escravidão. Sentindo que Abílio Wolney (filho) e cerca de duzentos jagunços estavam a caminho para vingar a morte do pai e salvar aquelas pessoas, os policiais se antecipam e matam todos os presos ao tronco, exatamente no dia 16 de janeiro de 1919, numa quinta-feira. Esses acontecimentos são noticiados e ganham repercussão nos principais jornais do país, dando notoriedade à pequena e arruinada vila do Duro, atual Dianópolis.
Moura Lima publica seu primeiro o romance Serra dos Pilões em 1995, obra considerada o primeiro romance tocantinense. Esse romance nasce após pesquisa sobre a história do janguncismo no interior de Goiás e a chacina de Pedro Afonso. É uma narrativa cujo núcleo central é a perseguição entre dois grupos inimigos: os jagunços do grupo do capitão Labareda, cujos braços fortes são Cipriano e Corta-Cabeça e tem por objetivo capturar o bando de cangaceiros de Abílio Batata, que é comandado por Cacheado, pois seu chefe Abílio Batata, supostamente está escondido na Bahia à espera do resultado dos saques de seus comandados no interior das terras goianas. O enredo da narrativa desenvolve-se em torno de uma demanda pela vingança, organizada por Labareda contra o bando de Abílio Batata, responsável pelo assassinato de tantos habitantes de Pedro Afonso e a destruição parcial do arraial em 1914. O bando depois se refugia na região do Jalapão, onde se desenvolve a narrativa. O autor divide a obra em capítulos[6] curtos que acompanham a linearidade de cada ação dos grupos de personagens. Inicialmente apresenta alguns flashes narrativos bem interessantes: enquanto as pessoas na Vila de Pedro Afonso lamentam sua destruição pelo grupo de Abílio Batata, os dois grupos avançam rumo às serras do Jalapão. O de Cacheado à frente promovendo outras atrocidades por onde passava e o de Labareda no seu encalço e, quando pode, minimiza a dor das pessoas que de alguma forma foram violentadas pelo primeiro grupo. A história tem início em Pedro Afonso, após a chacina e termina na serra do Jalapão, com a derrota de Cacheado e de seu bando. Nesse universo entre cerrado, entremeado de veredas, brejos e rios, se desenrola a perseguição, as tocaias e finalmente, o confronto violento entre dois grupos de jagunços. A destruição do grupo de Cacheado pelo grupo de Labareda diminui, até 1918[7], as atrocidades no sertão. É uma narrativa dramática em que o autor apresenta recortes da história e da memória coletiva de Pedro Afonso, que são também referenciadas na história do Duro por Osvaldo Rodrigues Póvoa.
Bernardo Élis em sua obra, tanto nos contos como no romance, apresenta-nos a condição subumana do homem. E detalha, com realismo, o estigma de seus heróis ou anti-heróis que nascem da pobreza de mentalidade, da condição analfabeta dos oprimidos pela tacanhez dos que socialmente subjugam aqueles que os contrariam em seus desmandos e ambições[8]. Percebe-se que a intenção do autor é delinear as trilhas de leituras da violência, “dizer o outro”, o que está à margem, como lugar de questionamento da realidade. São as verdades humanas características que Bernardo Élis tenta desvendar em sua obra. O homem no seu plano regional e telúrico, em lances diversos entre dois mundos: o mundo interior, o da alma humana, e o homem social que luta pelo direito de ser humano. Esse indivíduo se potencializa de forma subjetiva tanto para a história quanto para a literatura. Pois em cada uma dessas vertentes é apresentado, a partir da investigação do historiador ou do romancista, e ambos, mesmo embasados no evento, o apresentam idealizando o que poderia ter sido e que não foi. Para Simone Garcia:

A importância da literatura para a história não está somente na capacidade de “dizer o outro”, mas também, por ela ser a ruína da própria história, na medida em que esta, por concretizar o mínimo (através da historiografia oficial), de suas potencialidades, possui um grande leque de possibilidades em aberto. A literatura aponta para outras histórias que, mesmo fictícias, poderiam ter sido e não foram. Nessas histórias, encontramos os sonhos, os anseios de toda uma massa excluída.[9]


Os personagens de O Tronco, Quinta-feira Sangrenta e de Serra dos Pilões têm uma existência histórica comprovada, coexistindo no mundo de possibilidade da literatura com personagens fictícios. Nesse sentido não podemos cobrar dos autores compromisso com a verdade histórica, embora as obras reflitam os eventos passados respectivamente, nas Vilas do Duro (Dianópolis) e Pedro Afonso; daí seu caráter híbrido.
Segundo Saramago em ensaio sobre história e ficção:[10]

(...) parece legítimo dizer que a História se apresenta como parente próxima da ficção, dado que, ao rarefazer o referencial, procede a omissões, portanto a modificações, estabelecendo assim com os acontecimentos relações que são novas na medida em que incompletas se estabeleceram. É interessante verificar que certas escolas históricas recentes sentiram como que uma espécie de inquietação sobre a legitimidade da História tal qual vinha sendo feita, introduzindo nela, como forma de esconjuro, se me é permitida a palavra, não apenas alguns processos expressivos da ficção, mas da própria poesia. Lendo esses historiadores, temos a impressão de estar perante um romancista da História, não no incorreto sentido da História romanceada, mas como o resultado duma insatisfação tão profunda que, para resolver-se, tivesse de abrir-se à imaginação.

Bernardo Élis e Moura Lima fizeram romances de espaço a partir do meio histórico e dos ambientes sociais nos quais ocorrem os eventos para, a partir daí, refletir sobre a exploração, a violência, o jaguncismo, o cangaceirismo, a má fé, tudo isso atrelado ao poder dos coronéis e à ausência do Estado, que ao invés de promover a justiça, inicia e apoia a ruína. A crise dos escritores perece que resulta da impossibilidade de dar uma resposta ao vencido, assim como parece também ser a crise do historiador.
Segundo Pierre Bourdieu “os historiadores, na sua ambição de ressuscitar o passado e na sutileza em mistificarem os eventos acabam utilizando intensivamente a metáfora repleta de mitos...”[11]. Na narrativa de Quinta-feira Sangrenta Osvaldo Rodrigues Póvoa também apresenta a história dos vencidos e aponta o elemento mítico na narrativa; o autor metaforiza diálogos e situações vividas pelos personagens reais de sua narrativa histórica. Assim como Bernardo Élis, Póvoa se preocupa com a apresentação do espaço social, com o elemento humano inserido nos conflitos internos desse espaço e com as interferências maléficas do Estado.
Segundo Hyden White[12], um mesmo evento pode ser contado de várias formas e possuírem sentidos diferentes. E o historiador diante das fontes e das evidências históricas, age como detetive, interpretando e dialogando com as fontes e essa interpretação depende do tipo de história que ele quer contar. A partir daí não há como definir a veracidade da história por ele construída[13].
A subjetividade histórica na criação literária dos autores implica na reconstrução da história social não como verdade, mas como verossimilhança. Pode-se dizer que esses autores com sua geografia humana, problematizam a relação do migrante nordestino, e de outros seres em trânsito – como os jagunços e cangaceiros -, com o sertão, com a política dos coronéis e fundam uma identidade com referência na história social.
N’O Tronco o inventário é mote para início da peleja entre o coletor municipal Vicente e o Coronel Pedro Melo. O capítulo “O inventário”, é assim narrado por Élis:

Uma indignação, uma raiva cheia de desprezo crescia dentro do peito de Vicente Lemes à proporção que ia lendo os autos. Um homem rico como Clemente Chapadense e sua viúva apresentando a inventário tão-somente a casinha do povoado! Veja se tinha cabimento! E as duzentas cabeças de gado, gente? E os dois sítios no município onde ficaram, onde ficaram?  Ora bolas! Todo mundo sabia da existência desses trens que estavam sendo ocultados. Ainda se fossem bens de pequeno valor, vá lá, que inventário nunca arrola tudo. Tem muita coisa que fica por fora. Mas naquele caso, não. Eram dois sítios, e as duzentas e tantas rezes, cuja existência andava no conhecimento dos habitantes da região. (...) Pela segunda vez Vicente lavrou seu despacho, exigindo que o inventariante completasse o rol de bens, sob pena de a coletoria Estadual o fazer. (O Tronco, págs. 4 e 5).


Percebe-se que o início do romance apresenta o mesmo mote narrativo: o inventário, a diferença está na nomeação dos personagens. Os de Póvoa são pertencentes a sua família, portanto, reais e os de Élis são fictícios. Póvoa apresenta entre 25 e 30 páginas o evento que Élis narra em 276 páginas. Outra situação similar à d’O Tronco é a descrição da comissão destinada a resolver os problemas do Duro:

Depois das providências que julgou necessárias, o Juiz Celso Calmon prossegue viagem para o Duro, e em fins de setembro, chega a Taipas. A Comissão está completa: o Juiz, o Promotor, o Tenente Antonio Seixo de Brito, os Alferes Catulino Antonio Viegas, Ulisses de Almeida e Francisco de Sales, além de sessenta praças. (Quinta-feira Sangrenta, pag. 22).

Bernardo Élis assim apresenta a comissão, representante do governo estadual, que seria responsável para resolver os problemas do Duro:

Há mais de mês que a comissão nomeada pelo governador estadual para abrir inquérito sobre os acontecimentos do Duro marcha pelo sertão. Quando saiu de Goiás, a comitiva era pequena: o juiz Carvalho, o escrivão Chaves, o Alferes Enéias Altino Peixoto, um cabo, dois soldados e o camarada Alexandre. Mais ia crescendo à proporção que avançava. Em são José do Tocantins uniu-se a ela o promotor de justiça. (O Tronco, pag. 60).

Quanto à toponímia, o espaço ficcional, é o mesmo espaço histórico: a vila do Duro, na divisa com o sertão dos estados da Bahia, Piauí e Maranhão, portões de entrada os tropeiros, dos vendedores ambulantes e dos jagunços e cangaceiros.
Outro flagrante narrativo se encontra no fragmento que narra o trajeto da Comissão vinda da cidade de Goiás, comandada pelo juiz Carvalho para resolver os problemas do Duro; durante a viagem ouviam-se boatos alarmantes que:

Artur Melo estava com muita gente reunida, bem armada e melhor municiada, cangaceiros arrebanhados nas fronteiras com a Bahia, Pernambuco, Maranhão e Piauí. [...] Em Arraias, um tropeiro vindo da Bahia contara que o Duro era jagunço só. Todo o pessoal valente das fronteiras de Goiás, Bahia, Maranhão e Piauí estava reunido no Duro. Ali estavam Abílio Araújo, mais conhecido por Abílio Batata, e Roberto Dorado, famosos cabos-de-guerra que alguns anos antes assaltaram, tomaram a cidade de Pedro Afonso, reduzindo as casas a um montão de ruínas fumegantes. (O Tronco, pag. 65).

Já na história, Osvaldo Rodrigues Póvoa assim se refere ao bando de jagunços contratados por Abílio Wolney:
Chegando à fazenda Buracão, os dois Abílio aguardam a vinda de Roberto Dorado. Dois dias depois este chega com seu grupo. Agora são mais de 200 homens, bem armados e municiados, sedentos de vingança e muito mais de saque. (grifo nosso). Os chefes: Abílio Wolney, Abílio Araújo, Roberto Dorado e Deocleciano de Castro[14] (Quinta-feira Sangrenta, pag. 34).

Os jagunços e cangaceiros são personagens em trânsito cujas ações permitem que se estabeleça um dialogismo significativo entre as narrativas e a história da região: os cangaceiros usurpavam os bens dos sertanejos e dos pequenos, afastados e atrasados vilarejos desprotegidos, que sofriam os desmandos do coronelismo com seu jaguncismo desenfreado além da corrupção política.
Conforme afirma Bakhtin, “as palavras servem de trama em todas as relações sociais em todos os domínios”[15]. Com isso, todas as formas de conhecimento que as pessoas introjetam nas relações sociais: valores culturais, econômicos, de direitos e deveres, de responsabilidade e compromisso social, etc, são exteriorizados pelos indivíduos a outros pela importância que seu conteúdo social apresenta. Nesse sentido, a obra literária pode ser vista como resultado de um sistema de relações que, por muitas vezes, é consequência da tirania do poder que subtrai do indivíduo esses valores e impõe-lhe o silêncio como obra de desencantos sociais.
Os personagens das narrativas de Bernardo Élis e os cidadãos citados por Osvaldo Rodrigues Póvoa são seres imersos na dura realidade do meio físico e social, por extensão, reduzidos à nulidade, e, por estarem sujeitos às forças da natureza e da violência, são obrigados pelas circunstâncias a se submeterem às ordens dos coronéis.
A história das ruínas de Pedro Afonso está monumentalizada em Serra dos Pilões, história que aponta para o culto às ruínas e à desaparição dos vestígios. Nesse sentido, ao recorrer à memória das ruínas da cidade de Pedro Afonso, Moura Lima traça o roteiro dos jagunços que desde o início do século XX, vinham seguindo o roteiro dos tropeiros nordestinos que povoaram o sertão durante o processo de colonização rural do norte goiano, atual Tocantins. Seguindo o roteiro dos jagunços, Moura Lima promove o reencontro do leitor com personagens conhecidos de outros autores regionalistas, Bernardo Élis e Eli Brasiliense. Os mesmos personagens de Bernardo Élis, os cangaceiros, são protagonistas de Serra dos Pilões, de Quinta-feira Sangrenta e de Uma Sombra no Fundo do Rio, de Eli Brasiliense.)
Os autores apontam em suas obras, que à época, início do século XX, a banalização da violência era um ato natural praticado pelos coronéis e pelo poder constituído e que, comumente, no interior do Brasil-Central, no Norte e Nordeste do país os coronéis eram políticos que aliciavam bandos de jagunços para resolverem suas pendências pessoais e políticas. Assim, o jogo de poder entre eles e as forças do governo gerou um surto de violência nas primeiras décadas do século XX nessas regiões.  
A história dos municípios de Dianópolis e Pedro Afonso é o que Hardman (2006), define como história das ruínas. Os eventos podem ser considerados a parte trágica de suas histórias e a literatura produzida em referência a tais acontecimentos está ainda à margem.  Lembrando suas palavras (de Hardman), a obra de Bernardo Élis apresenta a “barbárie civilizada”, a história da tragédia do Duro, uma vez que a unidade do povoado foi destruída[16] no momento que buscava sua autonomia. Élis interpreta o evento a partir dos índices históricos ainda não divulgados pela história oficial. É a reconstrução histórico-literária do vivido.
Segundo Moema de Castro Olival, Serra dos Pilões é história, na medida em que “o saber” de que lança mão é retirado da história” [17].  A obra é resultado de pesquisas sobre fatos trágicos acontecidos entre os anos de 1914 em Pedro Afonso. Moura Lima utilizou os registros históricos para recriar ficcionalmente suas verdades. O autor mapeia a região do sertão do Jalapão, no antigo norte Goiano e atual leste do Tocantins, à época, terra inóspita e portal de entrada dos muitos migrantes nordestinos. O sertão apresentado por Moura Lima é o sertão de conflitos sociais que deveria ser domesticado. A temática da obra se desenvolve em torno “de forças endógenas e exógenas que atuam entre avanços e recuos nos sertões do Jalapão”[18]. O grupo liderado pelo capitão Labareda avança em direção ao grupo liderado por Cacheado para fazer justiça, e toda a demanda é permeada de recuos ao evento trágico comandado por Abílio Batata à cidade de Pedro Afonso em 1914.
O contexto que fundamenta a obra é a fase primitiva dos sertões do norte goiano, num espaço limitado, ilhado pelo atraso com arquétipos humanos daqueles “fundões”. É o sertão esquecido pelo poder constituído e invadido pelas forças dos jagunços e cangaceiros vivendo em “pé de guerra”, e esse mesmo quadro é observado em O Tronco.
Os personagens de Moura Lima são presos às circunstâncias regionais, com todos os problemas que o isolamento político e cultural acarreta. O romance se desenvolve em meio a uma saga de jagunços e tropeiros entre Pedro Afonso e a região do Jalapão. E assim como nas tragédias gregas, os personagens imitam ações reais, suscitando a purgação dos sentimentos por meio do terror e da piedade. Com uma diferença: a de que enquanto nas tragédias gregas os personagens eram nobres, deuses e heróis, preocupados com a moralização dos costumes e pela catarse que era determinada pelo terror, pela piedade e pela intensidade do sofrimento que provocava, os personagens de Moura Lima são pouco nobres em suas ações: vivem no universo da violência e promovem as desesperanças existenciais, e a subcondição humana, destaques da tragicidade presente na obra. Encontram-se entre os abismos que separam o universo do ser humano presente na vida do homem contemporâneo. E percebendo sua instabilidade entre esses abismos, ultrapassam seus limites e causam destruição, repulsa e terror a si e aos outros.

Caráter dialógico das narrativas
De acordo com Francisco Foot Hardman[19], a literatura da margem pode ser o lugar de questionamento do trágico, história das autonomias, a busca da unidade perdida numa sociedade do esquecimento e a produção das ilusões coletivas.
A história literária do atual estado do Tocantins nasceu de fragmentos de memórias que por sua vez incentivaram à pesquisa histórica que podem ser reconstruções sobre o passado, porém as narrativas originadas desses fragmentos ainda estão à margem. Ainda não se tem autonomia nas relações sociais, nem culturais e politicamente ainda se vive a cultura do coronelismo. Nesse caso, é na margem que ressoam as vozes questionadoras dos extremismos locais[20].
 O texto literário pode ser contextualizado a partir da observação dos tecidos residuais de eventos históricos, porém nem sempre conseguimos conhecer a totalidade do interior dessa urdidura. Mesmo que se tenha um texto referencial que apresente as fronteiras do contexto literário sobre o mesmo evento, é preciso lembrar que há fronteiras que limitam ou mesclam realidade e ficção. Às vezes parece difícil visualizar essas fronteiras na obra de ficção, considerando a verossimilhança presente no texto. E o contexto pode ser entendido como testemunha, mesmo que seja testemunha da memória do vivido ou do ouvido na infância, ou da memória coletiva. Assim quando o escritor associa o texto ao contexto, num só tempo, explica o sentido da obra e promove o retorno à história. Esse retorno histórico pode significar uma tentativa de contar a história e ao mesmo tempo fundar uma identidade.
Nesse sentido, podemos dizer que os romancista Bernardo Élis, Moura Lima e o historiador Osvaldo Rodrigues Póvoa ao problematizarem a relação do migrante com o sertão e com a história social das primeiras décadas do século XX do norte goiano, atual estado do Tocantins, a partir de reconstruções, não de verdades históricas sobre o passado da região, reconstroem metaforicamente a história silenciada e, em função disso, põem seus discursos a serviço da inscrição literária que explica essa identidade. 
Francisco Foot Hardman[21] reabre a discussão sobre tantos pontos e traumas recolhidos de histórias que foram silenciadas, e das que foram incorporadas apresentando linguagens desprovidas de sentido, de forma que os espectros conciliados pela nação sorriem de suas próprias invenções/mentiras. São pontos extremos das fronteiras discursivas que criaram modos de produção de ilusões coletivas que, por sua vez, são responsáveis pelo efeito de “fantasias de Brasil” que se apresenta nas lutas sociais e guerras culturais e se entrecruzam de muitas maneiras, por vias simultâneas, com várias linguagens e/ou diferentes códigos de comunicação. Essas linguagens promovem unificações forçadas contra as diferenças socioculturais que, ou serão eliminadas da memória ou cristalizadas como figurações de um passado já suplantado. Assim cabe à máquina do Estado o apagamento da “cultura brasileira”, dos pontos extremos das fronteiras discursivas geográficas e históricas desses mitos[22] do ser nacional feitos para se comungar.
Esse processo pode originar-se de três modos relevantes de produção dos mitos de fundação nacional e da naturalização do poder estatal: o eixo monumental ou a monumentalização das ruínas, na produção de símbolos e construções reveladoras do poder aparente da civilização, a apresentação dos discursos e ações estatais, inclusive de seus aparelhos ideológicos. O eixo monumental direciona-se desde a metrópole ou polo urbano rumo ao sertão, campo ou região mais afastada dos grandes centros civilizacionais. De forma inversa o culto das ruínas ou o eixo delével se caracteriza pelas intervenções violentas de indivíduos, grupos e/ou políticas públicas no sentido do silenciamento completo de vozes ou línguas diferentes do monolinguismo do Estado e de seus porta-vozes, da desaparição de qualquer memória ou testemunhos das dissensões e desdobra-se na direção contrária, da fronteira político-administrativa mais remota ao grande centro de poder, medido em palavras, imagens e/ou armas com capacidade de impedir que as memórias incômodas possam reaparecer como provas comprometedoras. E entre esses dois movimentos polares localiza-se o eixo elegíaco ou ruiniforme, que produz simbolicamente marcado pela forte presença de discursos, rituais e atualizações que têm como motivo central o elogio das ruínas, a representação de um passado heroico perdido, o culto fúnebre e tantas vezes mórbido dos povos, grupos ou pessoas vencidas em batalhas assinaladas como históricas. Pode-se entender o eixo monumental como uma imposição que se desloca do centro à periferia, já o eixo delével, ao contrário, como uma forma popular, desloca-se da fronteira produtiva ao centro e o eixo elegíaco localiza-se entre os dois para produzir o discurso simbólico dos dois eixos.
Segundo Todorov[23] “duas visões diferentes do mesmo fato fazem deste dois fatos distintos”. O autor de Quinta-feira Sangrenta ou Os barulhos do Duro descende da família Wolney e se propôs à tarefa de pesquisar e publicar parte da memória histórica da ruína de sua Vila. Os eventos são narrados com uma forte subjetividade por parte do autor que a justifica pelo fato de, além de ser nativo da região, descende da família massacrada no tronco. Observa-se esse envolvimento do autor com o evento logo no início, na nota explicativa, quando diz ser o trabalho “uma homenagem aos seus avós João Rodrigues de Santana e Benedito Pinto de Cerqueira Póvoa, aos seus filhos e demais companheiros de infortúnio; ao coronel Joaquim Aires Wolney ...”. O tema ali tratado assemelha-se aos temas universais, que por sua vez nasceram em suas aldeias e se universalizaram. Já em O Tronco, Bernardo Élis utiliza o mesmo expediente local para tratar o tema da violência como consequência da ambição humana. Conclui-se que o mesmo fato é narrado em duas versões diferentes: aquela, segundo o autor, como história e esta como ficção.
As narrativas de O Tronco(1956), Quinta-feira Sangrenta (1975) e Serra dos Pilões (1995), apresentam o discurso localizado no eixo ruiniforme como representação de um passado perdido em meio às tragédias locais, e que ainda não se deslocaram das suas fronteiras de produção e permanecem entre os dois eixos na produção do discurso simbólico.
Os discursos desses autores têm caráter dialógico, uma vez que eles conscientemente os preenchem de palavras do outro[24].  Observando as datas de publicação dessas narrativas, o tema, o contexto e as semelhanças factuais, pode-se dizer que Osvaldo Rodrigues Póvoa dialoga com Élis como “historiador” do mesmo evento. Pode-se afirmar que Póvoa, para evoluir como escritor de Quinta-Feira Sangrenta, dependeu de palavras alheias[25], (no caso, de Bernardo Élis), em meio às quais procurou seu caminho. Portanto, seu texto habita nas vozes de Élis, assim como na narrativa de Élis habitam vozes de Póvoa. E Moura Lima seguramente leu as narrativas de Élis e Póvoa, investigou a história da vila de Pedro Afonso, transformada em ruína em 1914, cinco anos antes da chacina da Vila do Duro – Dianópolis, fechando assim, o ciclo narrativo. Essas três narrativas podem representar, portanto, a memória reelaborada por meio de três elementos: do testemunho, da história e da literatura. O que Póvoa elaborou como testemunho da história, Élis e Lima elaboraram como ficção.
Todo membro de uma comunidade falante encontra palavras habitadas por outras vozes[26]. Percebe-se que o processo de criação de uma obra literária parte de um longo trabalho de pesquisa de campo, pesquisa bibliográfica, pesquisa histórica e na tradição oral, e que pode ser entendida como o real mais ou menos imaginado, que justifica a origem da obra. Bernardo Élis confessa que “foi nesse processo de conversa com participantes que pôde perceber toda a intensidade com que falavam do caso.” Segundo Élis, o comportamento e a sensibilidade das pessoas ao recordar os fatos o comoveram tanto que acabou sendo dominado pela emoção. Assim nasce o romance e não mais o tratado sociológico anteriormente proposto pelo autor. Não conseguindo mais isentar-se do drama humano o documentário acaba sendo substituído pelo romance; o autor passa a recriar o evento histórico, e promove um retorno às memórias e às ruínas do passado. E assim o fez Osvaldo Rodrigues Póvoa, não como romancista, mas como “historiador” do mesmo episódio, vinte anos após a publicação de O Tronco.
Se a história social não se apresenta com linearidade, podemos afirmar que a história literária não se obriga a ser. Cabe, portanto, ao crítico observar as relações dialógicas entre os eventos históricos e literários. Para melhor compreensão da linearidade dessa “trilogia” como ilusão histórica ou artefato literário deve-se iniciar as leituras por Serra dos Pilões, seguida de Quinta-feira Sangrenta e encerrar com O Tronco, percorrendo exatamente o caminho oposto ao de suas produções.
E em Serra dos Pilões, Moura Lima retoma a palavra para reabitar ou preencher a lacuna deixada por Bernardo Élis e Osvaldo R. Póvoa, apresentando a origem dos personagens protagonistas das demandas que deram voz às três narrativas, apresenta os elementos que faltavam para completar o círculo dessa trajetória histórica trágica: os jagunços e os cangaceiros vindos dos estados do Nordeste que fazem fronteiras com o norte do estado de Goiás, atual Tocantins que, posteriormente migraram para a Vila do Duro/Dianópolis. Alguns vieram para atender aos chamados dos coronéis, outros seguiam as trilhas dos tropeiros com seus animais que arribavam do Nordeste, fugindo da seca e dos muitos problemas sociais.
Nesse sentido, pode-se afirmar que há uma ressonância histórica entre essas narrativas, uma vez que em cada obra encontramos muitas informações que preenchem as lacunas de uma e de outra. Cada narrativa se completa de informações de outra, e se fecham numa “trilogia”. Bernardo Élis analisa que os barulhos do Duro são o reflexo da cultura nordestina em Goiás, na parte que nosso estado confina com a Bahia[27]. Ou seja, no final do século XIX e início do século XX, o norte do estado de Goiás, era vulnerável aos desmandos dos coronéis que utilizavam serviços dos profissionais do crime (jagunços). Serra dos Pilões apresenta o confronto entre jagunços e cangaceiros, estes oriundos dos mesmos estados citados por Élis, e que protagonizaram sua obra na destruição da vila do Duro.
O contexto dessas obras permite-nos observar que elas são, além de documentos históricos, uma forma de historiografia a partir das ruínas, uma vez que a história oficial sobre tais eventos ainda é incipiente. Nesse caso a literatura passa a ser a “historiografia inconsciente”, pois utiliza os eventos sociais não como foram, mas como supõem que foram ou que poderiam ter sido.
A leitura dessas três obras a começar por Serra dos Pilões, seguida de Quinta-feira Sangrenta e finalizada com O Tronco leva o leitor à compreensão de que os autores trabalham a serviço do mito[28] fundador dessas cidades no estado. O mito fundador é, dessa forma, compreendido como aquele que explica a origem ou a fundação de determinado povo e este é eternizado pela sua constante ressignificação[29]. Assim, a partir da leitura comparativa entre os episódios históricos que compõem as narrativas percebe-se que o tratamento dado aos eventos foi a recriação de forma a gerar novos significados: em Quinta-feira Sangrenta, seu autor parece perdido entre a objetividade da narrativa histórica e a subjetividade literária. E busca no elemento mítico condições para construir um discurso indireto entre os personagens.
Considerando que o ponto de interseção mais sensível entre a história, a literatura e a sociedade concentra-se na figura do escritor,[30] podemos dizer que a tarefa empreendida por esses três autores descortinou grande parte dos fatos marcantes das primeiras décadas do século XX, e apresentaram os personagens que se projetaram na história do norte goiano, atual estado do Tocantins e ajudaram a construí-la.

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[1] Doutora em Literatura pela Universidade de Brasília - UnB e professora na Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. E-mail: teramos10@yahoo.com.br
[2] BAKHTIN, Mikhail.  “Os estudos literários hoje” In: Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
[3] In: Marcio Seligmann Silva. A literatura de testemunho e a tragédia: pensando algumas diferenças. Organizado por Ettore Finazzi-Agró e Roberto Vecchi. São Paulo: Unimarco Editora, 2004.
[4] Esses personagens transitam em Serra dos Pilões, Jagunços de Tropeiros, de Moura Lima.
[5] ACHUGAR, Hugo Planeta sem boca.
[6] Nesta pesquisa trabalhei com duas edições a 1ª, de 1995 (com 21 capítulos) e a 3ª, de 2001 (com 41 capítulos).
[7] Em janeiro de 1919, acontece a chacina do Duro e, depois disso, o bando comandado por Abílio Batata continuou promovendo muitas campanhas violentas pelo sertão do Jalapão. In Serra dos Pilões. 
[8] Moema de castro Olival. O espaço da crítica – panorama atual. Goiânia: UFG, 1998, pag. 149
[9] Canudos: História e Literatura, pag. 27.
[10] Saramago, José. História e ficção. In: Jornal de Letras, Artes e ideias. Lisboa, s/e, 1990; pag. 7-19
[11] In: O poder Simbólico, pag. 78.
[12] In: Trópicos do Discurso: Ensaios sobre a Crítica da Cultura, 1994, pags. 99 – 110.
[13]In: Compangnon, pag. 80, encontram-se as diferenças entre sentido e significado de um texto: -para Montaigne “os poemas significam mais do que dizem”; Hisrt afirma que o sentido designa aquilo que permanece estável na recepção de um texto; o sentido é singular; a significação, que coloca o sentido em relação a uma situação, é variável, plural, aberta e, talvez infinita.”
[14] Conforme Rui Facó os cangaceiros invadem, matam e saqueiam os bens de suas vítimas, os jagunços são indivíduos que prestam serviços aos coronéis por dinheiro. Nesse episódio de Quinta-feira Sangrenta Abílio Wolney contratou Cangaceiros, porém em suas terras havia muitos jagunços que se aliaram aos cangaceiros para “justiçar” a morte do velho Joaquim Wolney. 
[15] BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da linguagem. Op. cit., pag. 5.
[16] Esta é uma análise voltada para o início do século XX, mesmo agora, nas atuais circunstâncias, o município de Dianópolis reconstruiu sua história a partir da ruína.
[17] Op. Cit. pág. 26.
[18] Moema de Castro Olival. Moura Lima a voz pontual da alma tocantinense. Ensaio. TO, Gurupi: Gráfico e Editor Cometa. 1ª Ed. 2003.
[19] Op. Cit.
[20] No Tocantins o processo de colonização é permanente. É um Estado geograficamente localizado no centro do país, mas ainda é culturalmente periférico.
[21] Homo ínfimus: a literatura dos pontos extremos, In: a vingança da Hiléia, 2009, cap. 19
[22] Na visão de Roland Barthes, In: Mitologias. 3ª Ed. São Paulo: Difel, 1978: 175, o mito institui um dogma e um ritual, não levando à criação e sim à perpetuação de valores sacralizados, exibindo para o homem uma identidade paralisada e paralisante, já que seu objetivo é “imobilizar o mundo”.

[23] In: Estruturalismo e poética, trad. José Paulo Paes e Frederico Costa de Barros. 2ª Ed. São Paulo Cultix,1973, pág. 63.
[24]Mikhail Bakhtin.  O Problema do texto” In: Estética da criação verbal, 1997, pag. 343
[25] Todorov. Op. Cit. pag. 44.
[26] Bakhtin, Op. Cit. 340
[27] In: Quinta-feira Sangrenta, pág. 8
[28] O mito é entendido não só no sentido etimológico do termo (mythos – narração pública de feitos lendários de uma comunidade), mas também em sentido antropológico, como uma espécie de narrativa utilizada para explicar, entender, ou ainda justificar determinada realidade, solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade. In: Marilena Chauí, Brasil, Mito Fundador e Sociedade Autoritária. 4. ed. São Paulo: und. Perseu Abramo, 2001, pag. 9.   
[29] M. Chauí. Op. cit. pág. 8
[30]  Nicolau Sevecenko In: Literatura como missão, pag. 300.