terça-feira, 6 de novembro de 2018

Conto: O Pescador de tudo


  1. Conto
Pescador de tudo

                                                                            

A professora olhou-me e pediu para que eu aceitasse tal encargo, só até ela ir e voltar da capital do Estado, diga-se de passagem, que àquela época, ir à capital era uma aventura. Além da distância, a estrada era esburacada, os ônibus sem conforto... O fato é que aceitei ser a professora substituta. Passei uma semana em crise, preparando-me psicológica e materialmente para iniciar meus trabalhos com aquela turminha. Crianças de 2º Ano, saudáveis, simples e barulhentas, mas muito inteligentes. Normalmente àquela época, década de 1970, ano de 1978, as crianças que frequentavam o grupo escolar eram filhas de chacareiros, ou de pequenos sitiantes que ficavam nas casas de parentes ou moravam nas imediações da cidade.

Segundo informações, “aquela turma era a pior, em disciplina, da escola”,  mas isto não me intimidou. Fui. Gostei. Encontrei-me lá. Nunca mais saí da educação.

No ano seguinte, ainda cursando o Magistério, recebi uma turma de 2ª Série. Nessa época, já cursando a segunda fase de estágio supervisionado, todas as informações didáticas que recebia no Colégio, tratava logo de aplicá-las aos alunos. E todas as experimentações nas aulas de Ciências e Artes eram assessoradas por eles, os alunos. Eles sempre traziam para a escola os objetos (coisas inusitadas que conheciam): frutos do cerrado, filhotes de passarinhos, plantas, sementes, girinos, barro de louça e até peixinhos. Nossas aulas eram sempre uma expedição. Ao final do dia, a sala ficava suja, especialmente quando trabalhávamos com barro de louça na modelagem de objetos que assemelhavam aos que eles tinham em casa, mas disciplinarmente nós deixávamos limpa, pronta para receber a turma do dia seguinte.  Nessa turma havia três crianças da mesma Família: dois meninos e uma menina. Dos meninos, lembro-me perfeitamente os nomes: Mustafá e Adailton. Crianças tidas pelos colegas como “insubordinadas”. Menos para mim. Sabia que moravam numa chácara perto da minha rua e conhecia sua família. Então comecei com uma estratégia que deu muito certo: tornei os dois meus ajudantes à caça de material para nossas aulas. Eles se divertiam e sentiam-se importantes. Como tudo que sugeria para as aulas se tornarem mais interessantes eles traziam a tempo e a hora, chamava-os “meus pescadores”. Nos divertíamos muito e ao mesmo tempo descobríamos que aquilo que fazia parte do nosso cotidiano era também ciência. Aprendemos sem passar pelo sofrimento da famosa “decoreba” dos anos de ditadura de tudo; anos em que  aprendíamos por meio de questionários sobre assuntos de história, ou qualquer outro assunto, sem questionar.

Pois bem, em 1980 concluí o Magistério e continuei lecionando. Passei por vários lugares, escolas, fiz graduação em Letras em 1999, Mestrado em Literatura em 2003. Em 2001 comecei a trabalhar no Ensino Superior, mas continuei trabalhando também na mesma cidade onde iniciei minha carreira de Magistério, agora no Colégio, Ensino Médio, não mais no grupo escolar.

Ora se deu que em 2009, estava a caminho do Colégio para iniciar o turno vespertino, quando de repente vi um senhor de meia idade, pedalando uma bicicleta, vindo à minha direção. Nesse momento eu estava passando à sombra de uma mangueira, dessas que são plantadas nas calçadas para ensombrar as portas das casas e a rua. Pois bem, aquele senhor de barba e cabelos grisalhos, para mim estranho até aquele momento, parou sua bicicleta e com ar de satisfação, interpelou-me: “ei, a senhora é a professora Bárbara Maria, né?” E eu disse: “sim, sou.” E ele, “a senhora não se lembra de mim?” E eu, surpresa com aquele encontro casual: “não, mas se o senhor me ajudar...” antes que eu terminasse a frase ele interrompeu-me: “eu sou o Mustafá, professora, lembra?” E eu: “bem, do Mustafá, sim, dele e do Adailton... então é você? Tudo bem com você, Mustafá? há quanto tempo!”. E ele, “a senhora não mudou muito, professora, continua bonita”. Eu nem sabia que era bonita aos olhos daquelas crianças. Ele continuou: “professora ainda hoje eu me lembro das suas, das nossas aulas. A senhora lembra que eu era seu pescador? Aquela foi a melhor época da minha vida! Que eu mais aprendi. Tanto que não esqueço  de nada. Tempo bom aquele, professora!”

Aquela declaração me deu arrepios, entre emocionada e feliz eu disse: nossa! Que coisa linda você está dizendo, muito obrigada por esse presente, Mustafá, com essa sua revelação eu não ganhei apenas o dia, mas o ano! Você sabe quanto tempo faz ?”E ele disse, há professora, acho que uns 30 anos!” E era mesmo!

Passamos algum tempo conversando. Como a querer investigar mais sobre aquela aparição, indaguei da sua vida, do seu irmão, se tinha continuado os estudos, ao que ele negou justificando dificuldades financeiras. Perguntei por seu irmão Adailton e ele disse estava casado e morava em Lagoa da Confusão. Nos despedimos  ali, pois a sirene do Colégio estava tocando. Isto se deu em maio.
O tempo passou, eu esqueci temporariamente aquele encontro com o passado e o envelhecido ex-aluno Mustafá, meu ajudante pescador de tudo.

Em agosto do mesmo ano. Estava numa turma de 4º Período de Letras em um seminário de Literatura portuguesa na cidade de Paraíso. O seminário tinha sido acalorado, dado o tema abordado (sobre poesia erótica, beirando à pornografia, de Bocage). Ao final da aula, segui para a o terminal rodoviário para pegar o ônibus para casa e um aluno do curso de Letras acompanhou-me. Como o ônibus ia demorar um pouco, sentamo-nos em um banco em frente à rodoviária e começamos a falar sobre metodologias de ensino. Ele elogiando minha coragem ao abordar, os diversos temas e a tranquilidade com que os alunos, no caso seus colegas, correspondiam.

Lembrei-me, nesse momento do encontro que tive com meu ex-aluno de 1979, portanto, há 30 anos. Comentei sobre o quão importante é fazer bem nosso trabalho. E comecei a contar-lhe como tinha sido emocionante aquele encontro. Um detalhe: ao sentarmos naquele banco à espera do ônibus, já havia uma senhora sentada, então nos sentamos ao lado dela. Ela estava do lado direito, eu sentei-me no meio e José do lado esquerdo. A senhora, ao ouvir minha história, não se conteve: tocou no meu ombro e disse também surpresa: “hã, não me diga que a senhora é a professora Bárbara Maria?” _ sim, sou! E a senhora, quem é? Tamanha minha surpresa quando ela disse: “Uai, professora, eu sou irmã do Mustafá, eu também fui sua aluna naquela época, da mesma turma!”

Pensei: “que mundo pequeno”, e disse: nossa, que coincidência, será este o ano do reencontro com meu passado de 30 anos? Que coisa interessante! Mas diga, como está o Mustafá, está tudo bem com ele?”

Naquele momento seu semblante mudou, percebi uma aura de tristeza em sua fisionomia e, quase a soluçar ela disse-me: “Ô, professora, o Mustafá morreu afogado, em julho. Foi pescar no rio Urubu, ele tinha bebido umas pingas, achamos que ele escorregou e caiu no rio. Como não sabia nadar, morreu afogado. Foi muito triste, professora. Ele disse que tinha encontrado com a senhora, que tinha matado a saudade”.

Que ironia! Meu pescador de tudo, menino de rasas grotas, morreu afogado no rio.


Tereza Ramos de Carvalho
Cristalândia, TO, junho de 2012.

2 comentários:

  1. Que texto lindo! Fiquei emocionada! Amor pelo que fazemos, isso sim, faz toda a diferença. Parabéns por ser esse ser tão lindo!

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  2. Muito bom. Gostei muito da linguagem do texto.

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