https://www.youtube.com/watch?v=4GVLkxvG8lU
Uma comédia romântica contextualizada nos anos 1940, final da Segunda Guerra Mundial. Apresenta personagens simples que utilizam a Literatura e discussões literárias para fugirem do caos provocado pela violência da Guerra.
terça-feira, 25 de dezembro de 2018
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
ensaio
Ensaio
Introspecção confessional em Graciliano Ramos – enfrentamentos do
narrador-personagem de Angústia.
Tereza Ramos de
Carvalho[1]
Bakhtin em seu ensaio “o autor e o herói” discute a relação do autor com
o herói em sua arquitetônica estável e em sua dinâmica viva. Segundo Bakhtin,
“todos os componentes de uma obra nos são dados através do que eles suscitam no
autor. E a responsabilidade do leitor é o juízo de valor a todas as
manifestações daqueles que o rodeiam, pois cada ato ou pensamento está ligado a
outros pensamentos ou a pensamentos de outrem.”[2]
Já o desenvolvimento das características do herói depende das reações
emotivo-volitivas do autor, que penetra no caos dos personagens para apresentar
sua autêntica postura de valores e para estabilizar os rostos das personagens.[3]
Neste ensaio proponho-me a discutir a relação que se pode estabelecer
entre autor e personagem de uma obra a partir da introspecção do personagem
central de Angústia, Luis da Silva,
que no seu bojo é uma obra confessional e, portanto, introspectiva. Para tanto
busquei a teoria bakhtiniana e a obra de Antonio Candido, Ficção e confissão que discute os enfrentamentos do autor
Graciliano Ramos, através dos personagens de suas obras, principalmente em Infância (1945), Angústia (1936), Caetés
(1928) e Memórias do Cárcere (1953).
Angústia é uma
narrativa psicológica densa, no entender de Sergius Gonzaga "um dos
romances mais amargos da literatura brasileira”. A obra inicia com o despertar
de um estágio profundo de letargia que domina o personagem Luís da Silva após
cometer um crime, e termina nessa mesma atmosfera. O que completa um percurso
cíclico, acentuado numa realidade que, apesar de apresentar um dinamismo vital,
parece imóvel, se observarmos a velocidade com que tudo parece se totalizar:
O sino da
Igrejinha bate a primeira pancada das ave-marias.
Não, não
é o sino da igreja, é o relógio da sala de jantar. Oito e meia. Preciso vestir-me depressa, chegar à
repartição às nove horas. Apronto-me, calço as meias pelo avesso e saio
correndo. Paro sobressaltado, tenho a impressão de que me faltam peças do
vestuário. Assaltam-me dúvidas idiotas. Estarei à porta de casa ou já terei
chegado à repartição? Em que ponto do trajeto me acho? Não tenho consciência dos
movimentos, sinto-me leve. Ignoro quanto tempo fico assim. Provavelmente um
segundo, mas um segundo que parece uma eternidade. Está claro que todo o desarranjo é interior.
(Angústia p 22).
É como se o narrador observasse sua vida através de uma fotografia, ou de
uma sequência de fotografias sobre angústia, tema central de sua narrativa. A
figura de Luís da Silva por ser fragmentada assim como a narrativa de sua vida,
vai se compondo à medida que sua subjetividade o delineia e mostra a relação
que ele tem com mundo.
Ao personagem-narrador, Luís da Silva, o autor de sua história,
Graciliano, demiurgo, concede livre arbítrio para que ele possa transitar e
conviver no seu próprio caos. Luís da
Silva, ao contrário dos personagens de Dostoievski, por exemplo, apresenta uma
gênese, uma causa, explicações do passado e das influências do meio. Cada
atitude do personagem parece estar amarrada, presa a um trauma vivido no
passado.
O poço da pedra era uma
piscina enorme. (...) Quando eu ainda não sabia nadar, meu pai me levava para
ali, segurava-me um braço e atirava-me num lugar fundo. Puxava-me para cima e
deixava-me respirar um instante. Em seguida repetia a tortura. Com o correr
do tempo aprendi natação com os bichos e livrei-me disso. Mais tarde, na
escola de mestre Antonio Justino, li a história de um pintor e um cachorro que
morria afogado. Pois para mim era no
poço da pedra que se dava o desastre. Sempre imaginei o pintor com cara de
Camilo Pereira da Silva, e o cachorro parecia-se comigo. (Angústia. p. 5).
Os espaços de Luís da Silva são demarcados por
situações psicológicas complexas e por sua desagregação mental. Essas
perturbações progressivas do herói, na medida em que avançam, deformam tanto o
espaço do presente quanto do passado. Os motivos espacio-temporais plasmam as
inquietações do ser fragmentado: o quintal da casa, a visão que ele tem da rua,
do bar, da casa, da repartição... e o passado que é referido sempre através de
lembranças da morte e da destruição: o enterro do pai, os afogamentos no poço
da pedra, a morte de seu Evaristo enforcado em seu casebre, a cobra enrolada no
pescoço de seu avô Trajano, a morte de Germana.
Talvez por isso tenha sempre justificativas para suas atitudes. Luís da
Silva é um personagem que vive em constante tensão psicológica e, em função de
sua timidez e solidão, de sua capacidade mórbida de auto-análise, passa a viver
entre as fronteiras de seus próprios abismos existenciais, a tal ponto que chega
a sentir nojo de si mesmo.
_
Peste! Andei rolando no chão como um porco. (...) Senti a necessidade de lavar
as mãos. Estava imundo e receava contaminar os objetos. (...) Fui ao banheiro,
meti as mãos no balde de água e lavei-as, muito lentamente porque as feridas
começavam a doer em demasia. Deitei fora a água, mergulhei o balde no tanque e
recomecei a lavagem. (Angústia p. 204).
Esse aspecto introspectivo do personagem é constante em todo o desenrolar
do romance que é marcado por temporalidade tríplice: o presente que é fruto de acontecimentos distantes do passado - principalmente os da infância
- que, segundo o herói, são completados por sua imaginação, aguçam seus
desejos.
Ponho-me
a vagabundear em pensamento pela vila distante, entro na igreja, escuto os
sermões e os desaforos que padre Inácio pregava aos matutos: “arreda, povo,
raça de cachorro com porco” (...), ouço as cantilenas dos sapos. Vejo a figura
sinistra de seu Evaristo enforcado. Lembro–me de um fato, de outro fato
anterior ou posterior ao primeiro, mas os dois vêm juntos. (...) Tudo
empastado, confuso. (...) saíram do entorpecimento recordações que a imaginação
completou. (...) Lá estão novamente gritando os meus desejos. Calam-se
acovardados, tornam-se inofensivos.[4]
(...) Um arrepio atravessa-me a espinha, inteiriça-me os dedos sobre o papel.
(...) De repente surgiam vozes
estranhas, ..., vozes que iam crescendo, monótonas e causavam medo. Um alarido,
um queixume, clamor enorme, sempre no mesmo tom. As ruas enchiam-se, a saleta enchia-se, e eu
tinha a impressão de que o brado lastimoso saía das paredes. (...) a
verdade é que muitas vezes perguntei a
mim mesmo se realmente ouvia aquele barulho grande, diferente dos outros
barulhos. Perguntei naquele tempo, ou perguntei depois? Não sei. Tenho me
esforçado para tornar-me criança. E em conseqüência misturo coisas atuais a
coisas antigas. (Angústia. pp. 16 e
17).
Para Bakhtin (1997), o herói de uma obra, além de
depender das emoções emotivo-volitivas do autor, é também parte, fragmento dele[5].
Nesse caso o herói pode ser considerado autobiográfico. Luís da Silva, na
medida em que se propõe a narrar suas lembranças principalmente as da infância
e os fatos do passado recente estabelece uma aproximação com o narrador de Infância, obra publicada nove anos após
a publicação de Angústia. A impressão
do leitor atento é de que o autor está presente no produto criado por ele. Assim, pode-se afirmar que há uma
contraditória coincidência entre o autor e o herói, pois por ser o autor uma
parte integrante do todo artístico como tal, não poderia coincidir com o herói,
que é também parte integrante do autor. Bakhtin (1997), afirma que o autor se
situa muito próximo de seu herói, ‘parecem ser intercambiáveis nos lugares que
ocupam respectivamente, e é por esta razão que é possível essa coincidência
entre autor-escritor e personagem-autor.[6] O
autor é o depositário da tensão exercida pela unidade de um todo acabado, o
todo do herói e o todo da obra. E a
consciência do autor engloba e acaba a consciência do herói e do seu mundo, pois
o autor vê e sabe mais do que o herói. E o discurso do herói está impregnado do
discurso do autor-criador sobre o herói[7].
Podemos citar em Angústia
vários exemplos desse intercâmbio herói x autor: se considerarmos a tonalidade
ficcional de Infância na infância de
Graciliano, as inquietações do herói podem ser consideradas uma refração ao
herói de Angústia. Seus traços característicos, os episódios de sua vida, seus
atos e pensamentos, sentimentos em relação aos outros e o seu juízo de valor a
todos esses sentimentos.
Antonio Candido, em Ficção
e Confissão, apresenta alguns
elementos que confirmam as discussões de Bakhtin, e o elemento que parece ser a
característica que mais aproxima o personagem Luís da Silva de seu
autor-criador é que Graciliano dá-lhe “algo muito seu: a vocação literária”,
apesar de apresentar uma “irritação permanente contra tudo o que escreveu”.[8]
Segundo Candido, Luis da Silva é personagem criado com premissas autobiográficas;
e Angústia, autobiografia potencial.
Quanto à atitude literária, Luís da Silva também apresenta esse
potencial crítico à sua escritura; que pode ser comparado à postura de
Graciliano:
Habituei-me
a escrever, como já disse. Nunca estudei, sou um ignorante, e julgo que os meus
escritos não prestam. Mas adquiri cedo o veio de ler Habituei-me a escrever,
como já disse. Nunca estudei, sou um ignorante, e julgo que os meus escritos
não prestam. Mas adquiri cedo o veio de ler romances e posso, com facilidade,
arranjar um artigo, talvez um conto. Compus, no tempo da métrica e da rima, um
livro de versos. Eram duzentos sonetos aproximadamente. Não me foi possível
publicá-los, e com a idade compreendi que não valiam nada.(Angústia. p. 45).
Outra atitude do autor Graciliano que o aproxima de seu
herói Luis da Silva é sua “aversão, que vai da mal refreada birra ao ódio puro
e simples pelos ricos, importantes, doutos, fariseus, homens dos vários graus
de compromisso com a ordem estabelecida. Uma espécie de projeção da sua náusea
ante os livros de leitura do solene Barão de Macaúbas, de Infância.”[9] E
essa aversão é nutrida por Luis da Silva:
Dinheiro
e propriedades, que me dão sempre desejos violentos de mortandade e outras
destruições, as duas colunas mal impressas, caixilho, dr. Gouveia, Moisés,
homem da luz, negociantes, políticos, diretor e secretário, tudo se move na
minha cabeça como um monte de vermes, em cima de uma coisa amarela, gorda e
mole que é, reparando-se em, a cara balofa de Julião Tavares aumentada.
(Angústia. p. 9).
A partir dessas considerações podemos pensar nos
enfrentamentos das contradições do autor através de sua trajetória literária em
Angústia:
O herói Luís da Silva é um personagem angustiado com
marcas profundas daqueles que despertaram para a realidade, por terem sidos
obrigados a isso, e perceberam, nesse despertar, a deformação dos valores do
homem. Ao nomeá-lo como autor-narrador ou pseudo-autor para seu texto,
Graciliano retoma sua preocupação com o fazer literário, com o texto enquanto
produção. A solidão do indivíduo e a dificuldade de um encontro satisfatório
com outro ser humano deságuam na opção de escrever para sobreviver psicológica
e materialmente. Vítima da opressão e, consciente disso, vende sua escritura,
que assume os valores e os contornos do opressor. Sua liberdade criadora
acha-se comprometida com artigos elogiosos em jornais, políticos e comerciantes
sem escrúpulo. (“se me tivesse encomendado e pago um artigo de elogio...”),
Vê-se como um objeto intelectual do mundo ao qual pertence.
Os sentimentos contraditórios de Luís da Silva –
intelectual - são animados por uma antinomia: o privilégio e a miséria. Apesar
do conhecimento intelectual e de sua consciência moral, ele não assumiu nenhuma
posição político-social, fez concessões de tudo e o que lhe restou foi a
consciência angustiada de sentir-se alienado e vendido. Suas lembranças da
infância e da adolescência ampliam-se para uma extensão vital e percorrem o
texto a tal ponto sob formas obsedantes que levam o herói a destruir-se
gradativamente.
Outro enfrentamento vivido pelo narrador é sua luta
constante em busca do conhecimento de sua natureza contraditória. Tem uma visão
pessimista do mundo que constrói o sistema de valores e, assim como Graciliano,
generaliza o drama individual, levando-o ao âmbito das relações sociais,
aniquiladora das possibilidades do homem. Esse enfrentamento, reflexo das
relações familiares repressivas e violentas, leva Luís da Silva a submeter suas
relações posteriores com o outro a processos de fuga na qual o confronto com a
realidade é motivo para humilhação, tanto que seu “mundo desaba sempre que a
realidade lhe entra pelos olhos”.
Parece que o maior enfrentamento do autor diz respeito
ao contexto em que está inserido o Nordeste agrário e as relações problemáticas
entre senhor e escravos. A decadência dos engenhos, o complexo econômico agora
unido às situações sociológicas implícitas que sintetiza ficcionalmente a
desagregação social e a degradação do indivíduo desce ao patamar da
zoomorfização. A ponto de Graciliano construir um universo zoológico
inferiorizante que pode ser comparado à diminuição da humanidade: rato, sururu,
ratuínos, coruja, cobra vão ganhando espaço nesse universo no qual a luta pela
sobrevivência substitui valores humanos.
Graciliano ainda traz para o espaço urbano um
personagem em trânsito do meio rural, assim atinge, depois de São Bernardo e,
posteriormente em Vidas Secas, os problemas do Nordeste. Nesse contexto
apresenta Luís da Silva, um indivíduo dominado por obsessões infantis, social e
afetivamente oprimido, num ambiente em que a predominância do dinheiro – ou da
falta dele – mantém o herói numa tensão continuada, acentuando ainda mais suas
antinomias: um ser intelectualmente privilegiado que lança-se num caminho
errado e vislumbra a solução na morte de Julião Tavares e na destruição de
todas as qualidades desagradáveis que o intimidavam. A morte de Julião pode representar a morte dos
valores burgueses que, segundo Candido é “surdamente desejada” nas obras de
Graciliano Ramos.
Retomando à proposta inicial deste ensaio que é
discutir a relação que se pode estabelecer entre autor e personagem de uma obra
a partir da introspecção do personagem central de Angústia, pode-se afirmar que as inquietações do
personagem-narrador confundem-se, ou apresentam características comuns às do
narrador de Infância, nas palavras de Candido, “parece que Angústia contém
muito de Graciliano Ramos, tanto no plano consciente (pormenores biográficos),
quanto no inconsciente (tendências profundas, frustrações) representando a sua
projeção pessoal até a mais completa no plano da arte.” Não se pode confundir
Graciliano Ramos com Luís da Silva, mas Luís pode representar o resultado do
que foi reprimido em Graciliano.[10]
Nesse sentido podemos dizer que o herói de Angustia, Luis da Silva, subjetivo,
nasce a partir das evoluções emotivo-volitivas do autor e se concretiza a
partir da materialidade, objetiva, do texto.
Referências
BAKHTIN, Mikhail. “O autor e o Herói” In A estética da Criação Verbal. Tradução a
partir do Francês - Maria Ermantina G. G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes,
1997.
CANDIDO, Antonio. Ficção
e Confissão – Ensaios sobre Graciliano Ramos. São Paulo: Editora 34.
RAMOS, Graciliano. Angústia:
posfácio de Otto Maria Capeaux, ilustrações de Marcelo Grasmam. 48ª Ed.
Rio, São Paulo, 1998, 240p.
RAMOS, Graciliano - Fortuna
Críticas; coletânea organizada por Sônia Brayner. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1978. 315p.
[1] Doutora em Literatura pela Universidade de
Brasília – UnB, Professora de Literatura
na Universidade Federal de Mato Grosso.
[2] BAKHTIN,
Mikhail. “O autor e o Herói” In A
estética da Criação Verbal. Tradução a partir do Francês - Maria Ermantina
G. G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
[3] Ibidem
[4] Grifo
nosso.
[6] Idem. p
166.
[7] Idem. p.
32
[8] CANDIDO,
Antonio. Ficção e Confissão – Ensaios sobre Graciliano Ramos. São Paulo:
Editora 34. p. 42
[9] CANDIDO,
Antonio. Ficção e Confissão – Ensaios sobre Graciliano Ramos. São Paulo:
Editora 34.- p. 43
terça-feira, 6 de novembro de 2018
Meu Flamboyant e Eu
Já fui gata
borralheira e patinha feia na minha infância. Hoje, dessa infância de gata
borralheira e de patinha feia, carrego dentro de mim outra linda lembrança: quando criança meu brinquedo favorito era meu
Flamboyant. Eu morava na fazenda, não tinha brinquedos industrializados, aliás,
nem sabia que existiam, mas tinha uma linda árvore no terreiro (quintal) da
nossa casa. Todos os dias, à tardinha, eu varria embaixo dele só para, no dia
seguinte pisar naquele tapete de flores vermelhas que ele, generosamente
deixava cair, só para mim. Era assim que eu brincava, aquele era meu brinquedo
preferido. Eu não sabia que aquilo era poético. Atualmente, tenho outro
Flamboyant no quintal da minha casa, que hoje está carregado de poesia... há muita poesia, pena que estou longe dele.
Mas parece que me acostumei a ser
gata borralheira.
Conto: O Pescador de tudo
- Conto
Pescador
de tudo
A professora olhou-me e
pediu para que eu aceitasse tal encargo, só até ela ir e voltar da capital do
Estado, diga-se de passagem, que àquela época, ir à capital era uma aventura.
Além da distância, a estrada era esburacada, os ônibus sem conforto... O fato é
que aceitei ser a professora substituta. Passei uma semana em crise,
preparando-me psicológica e materialmente para iniciar meus trabalhos com
aquela turminha. Crianças de 2º Ano, saudáveis, simples e barulhentas, mas
muito inteligentes. Normalmente àquela época, década de 1970, ano de 1978, as
crianças que frequentavam o grupo escolar eram filhas de chacareiros, ou de
pequenos sitiantes que ficavam nas casas de parentes ou moravam nas imediações
da cidade.
Segundo informações,
“aquela turma era a pior, em disciplina, da escola”, mas isto não me intimidou. Fui. Gostei.
Encontrei-me lá. Nunca mais saí da educação.
No ano seguinte, ainda
cursando o Magistério, recebi uma turma de 2ª Série. Nessa época, já cursando a
segunda fase de estágio supervisionado, todas as informações didáticas que
recebia no Colégio, tratava logo de aplicá-las aos alunos. E todas as experimentações
nas aulas de Ciências e Artes eram assessoradas por eles, os alunos. Eles sempre
traziam para a escola os objetos (coisas inusitadas que conheciam): frutos do
cerrado, filhotes de passarinhos, plantas, sementes, girinos, barro de louça e
até peixinhos. Nossas aulas eram sempre uma expedição. Ao final do dia, a sala
ficava suja, especialmente quando trabalhávamos com barro de louça na modelagem
de objetos que assemelhavam aos que eles tinham em casa, mas disciplinarmente
nós deixávamos limpa, pronta para receber a turma do dia seguinte. Nessa turma havia três crianças da mesma
Família: dois meninos e uma menina. Dos meninos, lembro-me perfeitamente os
nomes: Mustafá e Adailton. Crianças tidas pelos colegas como “insubordinadas”.
Menos para mim. Sabia que moravam numa chácara perto da minha rua e conhecia
sua família. Então comecei com uma estratégia que deu muito certo: tornei os
dois meus ajudantes à caça de material para nossas aulas. Eles se divertiam e
sentiam-se importantes. Como tudo que sugeria para as aulas se tornarem mais
interessantes eles traziam a tempo e a hora, chamava-os “meus pescadores”. Nos divertíamos
muito e ao mesmo tempo descobríamos que aquilo que fazia parte do nosso
cotidiano era também ciência. Aprendemos sem passar pelo sofrimento da famosa
“decoreba” dos anos de ditadura de tudo; anos em que aprendíamos por meio de questionários sobre
assuntos de história, ou qualquer outro assunto, sem questionar.
Pois bem, em 1980
concluí o Magistério e continuei lecionando. Passei por vários lugares, escolas,
fiz graduação em Letras em 1999, Mestrado em Literatura em 2003. Em 2001 comecei
a trabalhar no Ensino Superior, mas continuei trabalhando também na mesma
cidade onde iniciei minha carreira de Magistério, agora no Colégio, Ensino
Médio, não mais no grupo escolar.
Ora se deu que em 2009,
estava a caminho do Colégio para iniciar o turno vespertino, quando de repente
vi um senhor de meia idade, pedalando uma bicicleta, vindo à minha direção.
Nesse momento eu estava passando à sombra de uma mangueira, dessas que são
plantadas nas calçadas para ensombrar as portas das casas e a rua. Pois bem,
aquele senhor de barba e cabelos grisalhos, para mim estranho até aquele
momento, parou sua bicicleta e com ar de satisfação, interpelou-me: “ei, a
senhora é a professora Bárbara Maria, né?” E eu disse: “sim, sou.” E ele, “a
senhora não se lembra de mim?” E eu, surpresa com aquele encontro casual: “não,
mas se o senhor me ajudar...” antes que eu terminasse a frase ele
interrompeu-me: “eu sou o Mustafá, professora, lembra?” E eu: “bem, do Mustafá,
sim, dele e do Adailton... então é você? Tudo bem com você, Mustafá? há quanto
tempo!”. E ele, “a senhora não mudou muito, professora, continua bonita”. Eu
nem sabia que era bonita aos olhos daquelas crianças. Ele continuou: “professora
ainda hoje eu me lembro das suas, das nossas aulas. A senhora lembra que eu era
seu pescador? Aquela foi a melhor época da minha vida! Que eu mais aprendi.
Tanto que não esqueço de nada. Tempo bom
aquele, professora!”
Aquela declaração me
deu arrepios, entre emocionada e feliz eu disse: nossa! Que coisa linda você
está dizendo, muito obrigada por esse presente, Mustafá, com essa sua revelação
eu não ganhei apenas o dia, mas o ano! Você sabe quanto tempo faz ?”E ele
disse, há professora, acho que uns 30 anos!” E era mesmo!
Passamos algum tempo
conversando. Como a querer investigar mais sobre aquela aparição, indaguei da
sua vida, do seu irmão, se tinha continuado os estudos, ao que ele negou
justificando dificuldades financeiras. Perguntei por seu irmão Adailton e ele
disse estava casado e morava em Lagoa da Confusão. Nos despedimos ali, pois a sirene do Colégio estava tocando.
Isto se deu em maio.
O tempo passou, eu
esqueci temporariamente aquele encontro com o passado e o envelhecido ex-aluno
Mustafá, meu ajudante pescador de tudo.
Em agosto do mesmo ano.
Estava numa turma de 4º Período de Letras em um seminário de Literatura
portuguesa na cidade de Paraíso. O seminário tinha sido acalorado, dado o tema
abordado (sobre poesia erótica, beirando à pornografia, de Bocage). Ao final da
aula, segui para a o terminal rodoviário para pegar o ônibus para casa e um
aluno do curso de Letras acompanhou-me. Como o ônibus ia demorar um pouco,
sentamo-nos em um banco em frente à rodoviária e começamos a falar sobre
metodologias de ensino. Ele elogiando minha coragem ao abordar, os diversos
temas e a tranquilidade com que os alunos, no caso seus colegas, correspondiam.
Lembrei-me, nesse
momento do encontro que tive com meu ex-aluno de 1979, portanto, há 30 anos. Comentei
sobre o quão importante é fazer bem nosso trabalho. E comecei a contar-lhe como
tinha sido emocionante aquele encontro. Um detalhe: ao sentarmos naquele banco
à espera do ônibus, já havia uma senhora sentada, então nos sentamos ao lado
dela. Ela estava do lado direito, eu sentei-me no meio e José do lado esquerdo.
A senhora, ao ouvir minha história, não se conteve: tocou no meu ombro e disse
também surpresa: “hã, não me diga que a senhora é a professora Bárbara Maria?” _
sim, sou! E a senhora, quem é? Tamanha minha surpresa quando ela disse: “Uai,
professora, eu sou irmã do Mustafá, eu também fui sua aluna naquela época, da
mesma turma!”
Pensei: “que mundo
pequeno”, e disse: nossa, que coincidência, será este o ano do reencontro com
meu passado de 30 anos? Que coisa interessante! Mas diga, como está o Mustafá,
está tudo bem com ele?”
Naquele momento seu
semblante mudou, percebi uma aura de tristeza em sua fisionomia e, quase a
soluçar ela disse-me: “Ô, professora, o Mustafá morreu afogado, em julho. Foi
pescar no rio Urubu, ele tinha bebido umas pingas, achamos que ele escorregou e
caiu no rio. Como não sabia nadar, morreu afogado. Foi muito triste, professora.
Ele disse que tinha encontrado com a senhora, que tinha matado a saudade”.
Que ironia! Meu
pescador de tudo, menino de rasas grotas, morreu afogado no rio.
Tereza Ramos de Carvalho
Cristalândia,
TO, junho de 2012.
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