Alma Penada
Tereza Ramos de Carvalho
Caboclo Tião era um vaqueiro
esperto, cumpridor de seus deveres e, às vezes, misterioso. Trabalhava na lida
com o gado da fazenda. Todos os dias levantava com o cantar do galo para
desleitar as vacas, depois apartava os bezerros e, finalmente, soltava o gado
no pasto ou, se o pasto estivesse escasso, soltava-o no campo, só para ter o
prazer de, à tardinha selar seu cavalo alazão e ir campeá-lo.
Esta era sua rotina. Mas se
deu que, nessas muitas saídas à tardinha, Tião afastou-se muito da fazenda e
acabou chegando, “sem querer”, na fazenda vizinha para onde havia mudado novos
vizinhos. Dentre esses vizinhos havia uma bela moça que o deixou encabulado de
início, esperançoso e, por fim, apaixonado. Tião agora vivia mais alegre,
sorria por qualquer motivo e dizia que era paixão; conforme dizia: “estou
arriado pela Rosa, ela é mesmo uma rosa!”.
A partir desse
encabulamento, e em função dele, à rotina de Tião acresce outros elementos. Se
antes era apenas um sujeito vaqueiro apaixonado pelo seu fazer diário na
fazenda, passa agora a cultivar duas paixões: a lida na fazenda e a esperança
de que Rosa um dia lhe botasse atenção. Então.
Todas as tardes Tião se
encantava, esperançoso, em novo ritual de higiene. Tomava banho no corgo com
sabonete Lux, não se esquecendo de ensaboar bem as axilas e deixar secar a
espuma para diminuir o suor e ficar mais perfumado. Vestia uma de suas calças
de tergal e uma camisa de volta ao mundo, aliás Tião tinha seis camisas de
volta ao mundo de cores diferentes e vibrantes, uma verde cana, alaranjada,
vermelha, outra azul turquesa, rosa choque, roxa, e duas caças de tergal e dois
pares de botinas. Pois bem, Tião todas as tardes recumpria o ritual: tomava seu
banho perfumado com Lux, vestia uma das calças, escolhia uma das camisas,
calçava suas botinas, enterrava a cabeça no chapéu de massa, selava seu cavalo
alazão e arribava para o campo, para recolher o gado e, no dia seguinte revivia
sua rotina. Agora Tião tem novo propósito.
Ora se deu que um dia uma
das vacas ficou de arribada. Tião agora tinha motivo para ir mais longe e
resolveu alongar seu campeio noite a dentro. Dá para imaginar sob qual
pretexto; ver Rosa. Finalmente consegui de Rosa um além de olhar; até um aperto
de mão! Só que.
Voltando para casa, coração não
cabendo no peito de tanta felicidade,
além de uma belíssima lua cheia poetizando ainda mais seu retorno, sem a vaca
que continuava de arribada, de repente o cavalo refugou. Percebeu que estava
passando embaixo de um pequizeiro. Tião olhou, não viu nada além da sombra da
árvore. Insistiu no olhar, olhou pros lados e percebeu que estavam passando,
ele e o cavalo, no meio de um cemitério
abandonado; desses que haviam entre muitas fazendas. Aí Tião sentiu um calafrio
na espinha. Cutucou a barriga do cavalo com as esporas, e nada. Estava empacado
mesmo.
Tião, entre calafrios e
tremedeira pôs-se a rezar: “Ave Maria cheia de Graça, o que será qu’ele tá
vendo... O Senhor é convosco e deve de tá comigo...” O cavalo refugou
novamente, soltando um enorme barulho ao bater os beiços. E Tião: “ai minha
nosssasssinhora, não quero nem ver!” Fechou os olhos, agarrado à lua da sela
com uma mão e as rédeas na outra. Nesse momento, sentia seu chapéu longe da
cabeça, pois seus cabelos estavam “em pé”. O Cavalo, tal qual Tião, cada vez
mais apavorado, refugou novamente, batendo os cascos como se planejasse um
salto. Tião abriu os olhos e viu! Saindo debaixo do pequizeiro, entre as cruzes
do cemitério, uma sombra de braços abertos vindo a sua direção. Os pensamentos
de Tião fervilham: “Pronto! É uma alma penada, meu Deus do céu!”
Mesmo naquele assombramento
daquela aparição, pensou em ajudar àquela pobre alma. Lembrou-se que seu pai
sempre ensinava a ele e a seus irmãos, a abordar as almas “sim, porque elas
estão por aí, precisando de reza, e quando elas se manifestam aos vivos é
porque estão precisadas”. E lembrou direitinho.
Tentou o diálogo: “Quem pode
mais do que Deus?” Para a alminha que continuava ali, de braços abertos,
silenciosa. E ele insiste: “quem pode mais do que Deus?” Pensou: “se ela
responder “ninguém”, eu digo “pois pelos poderes de Deus, me diga o que quer?”
Se for oração, eu rezo e ela vai simbora.
Porém a alminha continuava
em silêncio profundo, mas começou a movimentar-se, a andar a sua direção, muda,
e de braços abertos. Pensamentos de Tião: “lá vai, além de surda, é muda e
corajosa essa alma!” Seus pensamentos
não foram ouvidos pela pobre alma penada. E ela continuou a passos lentos
seguindo a sua direção. Tião gritou, em mais uma tentativa de comunicação.
“Quem pode mais do que Deus?” Nada como resposta.
Nesse momento, o cavalo
agora mais corajoso, começou a andar e saiu da sombra do pequizeiro, e, na
lentidão daquele medo, a alma continuava a andar em sua direção. Sentindo que o
cavalo perdera o medo, Tião sentiu-se corajoso também. Esperou.
Finalmente Tião a viu,
quando se fez notar à luz da lua. Entendeu porque a pobre alma não lhe
respondia. Ela não era muda, tampouco surda, nem alma: era um faminto tamanduá
comedor de formiga se fartando em sua refeição noturna.
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