terça-feira, 27 de setembro de 2011

Conto Alma Penada


  
Alma Penada


 Tereza Ramos de Carvalho

Caboclo Tião era um vaqueiro esperto, cumpridor de seus deveres e, às vezes, misterioso. Trabalhava na lida com o gado da fazenda. Todos os dias levantava com o cantar do galo para desleitar as vacas, depois apartava os bezerros e, finalmente, soltava o gado no pasto ou, se o pasto estivesse escasso, soltava-o no campo, só para ter o prazer de, à tardinha selar seu cavalo alazão e ir campeá-lo.

Esta era sua rotina. Mas se deu que, nessas muitas saídas à tardinha, Tião afastou-se muito da fazenda e acabou chegando, “sem querer”, na fazenda vizinha para onde havia mudado novos vizinhos. Dentre esses vizinhos havia uma bela moça que o deixou encabulado de início, esperançoso e, por fim, apaixonado. Tião agora vivia mais alegre, sorria por qualquer motivo e dizia que era paixão; conforme dizia: “estou arriado pela Rosa, ela é mesmo uma rosa!”.

A partir desse encabulamento, e em função dele, à rotina de Tião acresce outros elementos. Se antes era apenas um sujeito vaqueiro apaixonado pelo seu fazer diário na fazenda, passa agora a cultivar duas paixões: a lida na fazenda e a esperança de que Rosa um dia lhe botasse atenção. Então.

Todas as tardes Tião se encantava, esperançoso, em novo ritual de higiene. Tomava banho no corgo com sabonete Lux, não se esquecendo de ensaboar bem as axilas e deixar secar a espuma para diminuir o suor e ficar mais perfumado. Vestia uma de suas calças de tergal e uma camisa de volta ao mundo, aliás Tião tinha seis camisas de volta ao mundo de cores diferentes e vibrantes, uma verde cana, alaranjada, vermelha, outra azul turquesa, rosa choque, roxa, e duas caças de tergal e dois pares de botinas. Pois bem, Tião todas as tardes recumpria o ritual: tomava seu banho perfumado com Lux, vestia uma das calças, escolhia uma das camisas, calçava suas botinas, enterrava a cabeça no chapéu de massa, selava seu cavalo alazão e arribava para o campo, para recolher o gado e, no dia seguinte revivia sua rotina. Agora Tião tem novo propósito.

Ora se deu que um dia uma das vacas ficou de arribada. Tião agora tinha motivo para ir mais longe e resolveu alongar seu campeio noite a dentro. Dá para imaginar sob qual pretexto; ver Rosa. Finalmente consegui de Rosa um além de olhar; até um aperto de mão! Só que.

Voltando para casa, coração não cabendo no peito  de tanta felicidade, além de uma belíssima lua cheia poetizando ainda mais seu retorno, sem a vaca que continuava de arribada, de repente o cavalo refugou. Percebeu que estava passando embaixo de um pequizeiro. Tião olhou, não viu nada além da sombra da árvore. Insistiu no olhar, olhou pros lados e percebeu que estavam passando, ele e o cavalo,  no meio de um cemitério abandonado; desses que haviam entre muitas fazendas. Aí Tião sentiu um calafrio na espinha. Cutucou a barriga do cavalo com as esporas, e nada. Estava empacado mesmo.

Tião, entre calafrios e tremedeira pôs-se a rezar: “Ave Maria cheia de Graça, o que será qu’ele tá vendo... O Senhor é convosco e deve de tá comigo...” O cavalo refugou novamente, soltando um enorme barulho ao bater os beiços. E Tião: “ai minha nosssasssinhora, não quero nem ver!” Fechou os olhos, agarrado à lua da sela com uma mão e as rédeas na outra. Nesse momento, sentia seu chapéu longe da cabeça, pois seus cabelos estavam “em pé”. O Cavalo, tal qual Tião, cada vez mais apavorado, refugou novamente, batendo os cascos como se planejasse um salto. Tião abriu os olhos e viu! Saindo debaixo do pequizeiro, entre as cruzes do cemitério, uma sombra de braços abertos vindo a sua direção. Os pensamentos de Tião fervilham: “Pronto! É uma alma penada, meu Deus do céu!” 

Mesmo naquele assombramento daquela aparição, pensou em ajudar àquela pobre alma. Lembrou-se que seu pai sempre ensinava a ele e a seus irmãos, a abordar as almas “sim, porque elas estão por aí, precisando de reza, e quando elas se manifestam aos vivos é porque estão precisadas”. E lembrou direitinho.

Tentou o diálogo: “Quem pode mais do que Deus?” Para a alminha que continuava ali, de braços abertos, silenciosa. E ele insiste: “quem pode mais do que Deus?” Pensou: “se ela responder “ninguém”, eu digo “pois pelos poderes de Deus, me diga o que quer?” Se for oração, eu rezo e ela vai simbora.

Porém a alminha continuava em silêncio profundo, mas começou a movimentar-se, a andar a sua direção, muda, e de braços abertos. Pensamentos de Tião: “lá vai, além de surda, é muda e corajosa essa alma!”  Seus pensamentos não foram ouvidos pela pobre alma penada. E ela continuou a passos lentos seguindo a sua direção. Tião gritou, em mais uma tentativa de comunicação. “Quem pode mais do que Deus?” Nada como resposta.

Nesse momento, o cavalo agora mais corajoso, começou a andar e saiu da sombra do pequizeiro, e, na lentidão daquele medo, a alma continuava a andar em sua direção. Sentindo que o cavalo perdera o medo, Tião sentiu-se corajoso também. Esperou.

Finalmente Tião a viu, quando se fez notar à luz da lua. Entendeu porque a pobre alma não lhe respondia. Ela não era muda, tampouco surda, nem alma: era um faminto tamanduá comedor de formiga se fartando em sua refeição noturna.

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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Dicas de bons filmes

"Nenhuma leitura esgota uma obra literária"

O carteiro e o poeta é um filme muito apropriado para trabalhar com introdução aos estudos literários, além de despertar a sensibilidade para a criação poética.

Clique aqui e confira o resumo do filme.


Sociedade Literária e a torta de casca de batatas
https://www.youtube.com/watch?v=4GVLkxvG8lU


Uma comédia romântica contextualizada nos anos 1940, final da Segunda Guerra Mundial. Apresenta personagens simples que utilizam a Literatura e discussões literárias para fugirem do caos provocado pela violência da Guerra.